A Polícia Federal cumpriu, nesta sexta-feira (18), mandados de busca e apreensão na residência do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e na sede do Partido Liberal, em Brasília. A ação ocorreu no âmbito do inquérito que investiga tentativa de obstrução de justiça e ataques à soberania nacional, envolvendo Bolsonaro e seu filho, o deputado federal licenciado Eduardo Bolsonaro (PL-SP).
Durante a operação, a PF apreendeu cerca de US$ 14 mil em espécie, R$ 8 mil, um pen drive e o celular do ex-presidente. O dispositivo foi localizado no banheiro da residência de Bolsonaro. Questionado, ele alegou desconhecer a existência do item: “Nunca abri um pen drive na vida. Não tenho laptop em casa. Vou perguntar à minha esposa se é dela”, declarou.
Por decisão do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), Bolsonaro será monitorado por tornozeleira eletrônica, não poderá acessar redes sociais, se comunicar com diplomatas e embaixadores, nem manter contato com outros investigados, inclusive seu filho Eduardo. Além disso, está submetido a recolhimento domiciliar noturno (das 19h às 7h) e integral aos fins de semana.
Acusações de interferência estrangeira
Segundo a decisão de Moraes, há indícios de que Bolsonaro e Eduardo Bolsonaro atuaram, de forma “consciente, dolosa e ilícita”, para pressionar autoridades dos Estados Unidos a imporem sanções contra o Estado brasileiro. A estratégia visava, segundo o ministro, obstruir a ação penal 2668, que apura tentativa de golpe de Estado após as eleições de 2022.
Moraes considerou que os dois tentaram “submeter o funcionamento do Supremo Tribunal Federal ao crivo de outro Estado estrangeiro”. A decisão cita como agravante o apoio financeiro do ex-presidente ao filho, incluindo envio de R$ 2 milhões via Pix, confirmado por Bolsonaro: “O dinheiro é meu e é limpo”, disse ele em junho.
Trump pressiona e EUA ameaçam sanções ao Brasil
As medidas cautelares também são reflexo da recente pressão do governo norte-americano. O ex-presidente Donald Trump divulgou uma carta em que pede o encerramento imediato da ação contra Bolsonaro, classificando o processo como “injusto”. Além disso, o governo Trump anunciou tarifas de 50% contra o Brasil, condicionando a suspensão das medidas à anulação da AP 2668.
Na avaliação de Moraes, essa atuação é uma tentativa de gerar uma crise econômica e diplomática, forçando o STF a rever sua atuação. “A soberania nacional não pode, não deve e jamais será vilipendiada, negociada ou extorquida”, afirmou o ministro, que citou Machado de Assis e Abraham Lincoln para reforçar sua argumentação.
Publicações em redes sociais são parte das provas
A decisão também se baseia em uma série de publicações em redes sociais. Foram anexados 20 prints, incluindo postagens de Bolsonaro, Eduardo Bolsonaro e Donald Trump, consideradas provas de tentativa de influência indevida sobre o processo judicial. A PGR destacou o “tom intimidatório” das mensagens, especialmente contra magistrados.
Reação de Bolsonaro e aliados
Após a instalação da tornozeleira eletrônica, Bolsonaro disse estar vivendo uma “Suprema humilhação”. Em coletiva, afirmou: “Nunca pensei em sair do Brasil. Estou sendo perseguido. Isso é um constrangimento público”.
Ele criticou a proibição de contato com o filho: “Não posso falar com o meu filho Eduardo, é uma humilhação”. O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) também se manifestou, invocando Nelson Mandela e afirmando que a medida é “símbolo do ódio que tomou conta de Moraes”.
Em nota, a defesa do ex-presidente declarou: “Recebemos com surpresa e indignação a imposição de medidas cautelares severas contra ele, que sempre cumpriu com todas as determinações do Poder Judiciário”.
Risco de fuga e tentativas de asilo
A PF e a PGR relataram suspeitas de que Bolsonaro estaria cogitando pedir asilo nos Estados Unidos. Moraes cita esse risco como um dos motivos para as medidas cautelares. O ex-presidente, por sua vez, nega: “Nunca pensei em ir para a embaixada. Tenho 70 anos. É um exagero”.
Denúncia e réus por tentativa de golpe
Bolsonaro é um dos réus na Ação Penal 2668, que investiga a tentativa de golpe de Estado após o segundo turno das eleições de 2022. A PGR acusa o ex-presidente de tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito, golpe, dano qualificado ao patrimônio da União, e participação em organização criminosa.
Em março, o STF aceitou a denúncia da PGR e tornou réus, além de Bolsonaro, figuras como Alexandre Ramagem (deputado e ex-chefe da Abin), Almir Garnier (ex-comandante da Marinha), Anderson Torres (ex-ministro da Justiça), Augusto Heleno, Mauro Cid, Paulo Sérgio Nogueira e Braga Netto.
A defesa alega que o processo é uma tentativa de impedir a candidatura de Bolsonaro em 2026 e denuncia o que chama de “teatro processual”.
Próximos passos
Com a apreensão dos equipamentos e documentações, a PF deve realizar análises técnicas dos materiais coletados. As redes sociais, mensagens e movimentações financeiras de Bolsonaro e Eduardo estarão no foco das investigações. A defesa, por ora, aguarda acesso integral à decisão para se manifestar formalmente.
