Professor Gerson Misael faz da matemática um caminho de orgulho para Batalha

Educador batalhense está entre os 20 melhores do país ao conquistar ouro

Em 2025, Batalha viu a educação ocupar lugar de destaque em nível nacional. Estudantes do município conquistaram medalhas em olimpíadas científicas, escolas ganharam reconhecimento em projetos educacionais e jovens batalhenses passaram a figurar entre os melhores do país em diversas competições do conhecimento. Esse cenário positivo ajuda a explicar por que, ao completar 170 anos nesta segunda-feira (15), o município celebra não apenas sua história, mas o talento e o esforço de quem constrói essa trajetória por meio da educação.

Entre tantos exemplos ao longo do ano, estão estudantes como Mirela da Silva Martins, que conquistou medalha de ouro na Olimpíada Nacional de Ciências (ONC) e ficou entre os dez melhores do país; Isabele Dutra, medalhista de ouro na Olimpíada do Tesouro Direto de Educação Financeira (OLITEF); alunos premiados na Olimpíada Mirim de Matemática e na Olimpíada Brasileira de Astronomia (OBA); além da Unidade Escolar Lindolfo Nunes, da zona rural de Batalha, finalista da 7ª Jornada de Educação Alimentar e Nutricional (EAN), promovida pelo FNDE. O município também entrou para a história com João Marcos Rocha Melo, primeiro estudante de Batalha a conquistar medalha de ouro na Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas (OBMEP).

Nesse contexto de avanços, a história do professor Gerson Misael Sousa Oliveira simboliza não apenas uma conquista individual, mas um reflexo do potencial educacional batalhense. Em 2025, ele conquistou a medalha de ouro na segunda edição da Olimpíada Brasileira de Matemática dos Professores do Ensino Médio, resultado que o colocou entre os 20 melhores professores de Matemática do país na competição.

Gerson Misael Sousa Oliveira | Foto: Reprodução

O início da paixão pela Matemática

A relação de Gerson com a Matemática começou ainda na infância, quando estudava na rede pública de ensino. Ele recorda que, na antiga quarta série, na Unidade Escolar Hugo Napoleão, tinha dificuldade com divisão. A curiosidade o levou a estudar sozinho, utilizando o próprio livro didático, hábito que o acompanharia por toda a vida acadêmica.

Na quinta série, atual sexto ano, já no Ginásio Municipal Dedila Melo, ele teve contato com a OBMEP, competição que apresentou problemas mais criativos e desafiadores. A dificuldade inicial não o afastou; pelo contrário, despertou ainda mais interesse.

“Quanto mais eu aprendia, mais eu gostava”, relembra.

Em 2006, após dedicação intensa, conquistou menção honrosa na OBMEP e foi homenageado em um festival olímpico promovido pela escola e pela Secretaria de Educação. O reconhecimento, ainda muito jovem, fortaleceu sua autoestima e consolidou a certeza de que a Matemática faria parte de sua vida.

Da dúvida profissional à escolha pela docência

Ao concluir o ensino médio, em 2011, Gerson ainda não tinha clareza sobre a profissão que seguiria. Chegou a cogitar áreas como saúde, direito ou engenharia, mas nenhuma o cativava completamente. Em 2012, após receber menção honrosa na OBMEP, foi convidado a participar de um colóquio de Matemática em Teresina, na Universidade Federal do Piauí.

A experiência foi decisiva. O contato com o ambiente acadêmico, oficinas, pesquisadores e matemáticos renomados revelou uma Matemática muito além da sala de aula tradicional.

“Ali eu tive certeza. Saí daquele evento decidido: é isso que eu quero”, conta.

No ano seguinte, ingressou no Instituto Federal do Piauí (IFPI), campus Piripiri, para cursar Licenciatura em Matemática.

Construindo-se como professor

Ainda nos primeiros períodos da graduação, Gerson começou a substituir professores e a ganhar experiência em sala de aula. Em 2015, já atuava como docente no ensino médio pela rede estadual. No início, buscava referências em antigos professores, aulas disponíveis na internet e nas experiências da universidade.

Um ponto de virada ocorreu entre 2018 e 2019, quando passou a refletir sobre sua prática docente. Ele percebeu que precisava ir além da superficialidade do livro didático e colocar sua identidade como educador. A partir disso, adotou como filosofia ser “o professor que gostaria de ter tido”.

Nesse período, desenvolveu um trabalho de recomposição de aprendizagens com uma turma do nono ano, concluindo todo o conteúdo previsto e retomando bases fundamentais. O resultado apareceu no desempenho da escola no SAEB (Sistema de Avaliação da Educação Básica), com evolução significativa em Matemática, confirmando que estava no caminho certo.

O espírito olímpico como ferramenta pedagógica

Em 2019, Gerson passou a integrar o programa da OBMEP voltado à formação de professores e preparação de alunos para olimpíadas do conhecimento. Mesmo com os impactos da pandemia, o trabalho rendeu frutos em 2021, quando alunos da escola onde leciona conquistaram medalhas de bronze e diversas menções honrosas — um resultado inédito até então.

Desde então, a escola passou a ter presença constante nas cerimônias regionais de premiação da OBMEP. Para Gerson, mais importante do que a medalha é a trajetória. Ele defende o espírito olímpico como um caminho de aprendizado, mostrando aos alunos que estudar Matemática pode ser prazeroso e até divertido.

A medalha de ouro e o reconhecimento nacional

Apaixonado por olimpíadas, Gerson encontrou na Olimpíada Brasileira de Matemática dos Professores do Ensino Médio a oportunidade de vivenciar, como competidor, aquilo que sempre incentivou em seus alunos. Após não avançar na primeira edição, em 2023, decidiu tentar novamente.

Em 2025, passou pelas fases da competição até chegar à etapa final. Ao receber a notícia da medalha de ouro, a emoção foi imediata.

“É um reconhecimento nacional. Um sinal de que, apesar das críticas e desafios, estou no caminho certo”, afirma.

Além da medalha, a conquista renderá uma experiência internacional, incluindo intercâmbio acadêmico, algo que ele jamais havia imaginado vivenciar.

Educação como caminho para o desenvolvimento

Para Gerson, os desafios da Matemática passam pelo estigma construído historicamente de que a disciplina é inacessível. Ele defende que todos são capazes de aprender, desde que sejam incentivados e que os professores estejam em constante formação.

Mestre em Matemática, título concluído em 2024, ele acredita que o educador precisa dominar profundamente o conteúdo que ensina. Hoje, atua em múltiplas frentes: é professor da rede estadual, integra a rede municipal, coordena projetos olímpicos e participa da formação de professores, mantendo uma rotina intensa, mas gratificante.

Educação pública e compromisso com o futuro

Filho de professora da rede municipal e neto de pedreiro, Gerson carrega a escola pública como referência e luta para que ela seja cada vez mais forte. Ele defende que o desenvolvimento de Batalha passa, necessariamente, pelo investimento sério e contínuo em educação.

“O futuro da cidade começa na sala de aula”, afirma, ao destacar que formar bons estudantes hoje significa preparar os futuros profissionais, líderes e gestores do município.

Inspirar pelo exemplo

Entre tantas conquistas, o que mais marca sua trajetória são as mensagens de ex-alunos agradecendo, lembranças em datas especiais e o fato de inspirar jovens a escolherem a docência. Para ele, ser professor é uma profissão nobre, que precisa ser valorizada e fortalecida.

Com planos de seguir os estudos até o doutorado e continuar atuando em sala de aula e na formação de professores, Gerson segue acreditando que a educação transforma vidas — e que Batalha tem um potencial enorme a ser explorado.

Em um ano simbólico para o município, sua história representa bem o espírito da série “Orgulho dos que nascem por aqui”: a certeza de que são as pessoas, com dedicação e compromisso, que constroem o presente e projetam o futuro de Batalha.