Tamara Medeiros transforma escuta e acolhimento em orgulho para Batalha

Trabalho com famílias atípicas amplia o cuidado na saúde pública

Ao completar 170 anos, Batalha celebra uma história construída por pessoas que, em diferentes áreas, ajudam a transformar a realidade do município. Na saúde, esse caminho passa pelo cuidado que vai além da assistência direta, alcançando o planejamento, a escuta e a construção de redes de apoio. É nesse contexto que se insere a trajetória de Tamara Medeiros, profissional da saúde cuja atuação tem deixado marcas importantes no cuidado com as pessoas e, especialmente, com famílias de crianças atípicas.

Trabalhar na área da saúde sempre foi, para Tamara, um propósito de vida. O desejo inicial era estar próxima das pessoas por meio da assistência, especialmente na saúde materno-infantil. No entanto, em 2017, sua trajetória tomou um rumo que ela não havia planejado: o desafio de atuar também na organização e no funcionamento do sistema de saúde pública.

“Trabalhar com gestão em saúde nunca fez parte dos meus planos. Foi um desafio enorme que me foi proposto em 2017. Aceitei”, relata. Ao assumir essa missão, ela passou a compreender que ajudar as pessoas vai além do atendimento direto. “Trabalhar com gestão no SUS me mostrou que ajudar as pessoas vai muito além de prestar assistência”, afirma, ao reconhecer a importância desse trabalho, muitas vezes invisível para a população.

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Contribuir com a saúde em um ano simbólico para Batalha

Em um ano simbólico para o município, Tamara destaca o significado de contribuir com a saúde da população justamente quando Batalha celebra seus 170 anos. Para ela, participar das melhorias no sistema de saúde local envolve planejamento, organização das equipes e busca constante por qualidade nos serviços oferecidos.

“É extremamente enriquecedor poder contribuir para a saúde das pessoas, fazendo parte do planejamento do trabalho das equipes, coordenando todo o processo e trabalhando em prol da melhoria da qualidade da assistência”, pontua.

Segundo ela, essa contribuição vai muito além de qualquer retorno financeiro, pois representa um impacto real na vida das pessoas.

A paixão pela saúde materno-infantil e o caminho da formação

A saúde materno-infantil sempre ocupou um lugar central em sua trajetória. Logo após a graduação, Tamara ingressou na obstetrícia, área pela qual desenvolveu afinidade desde o início. A vivência no Sistema Único de Saúde (SUS) e os desafios encontrados no dia a dia despertaram a necessidade de aprofundar conhecimentos em saúde pública, o que a levou ao mestrado.

Ao longo dessa caminhada, outro interesse surgiu a partir da prática: a terapia ocupacional. A decisão de iniciar os estudos na área nasceu da observação direta da realidade vivida pelas famílias, especialmente aquelas que convivem com crianças com transtornos de neurodesenvolvimento.

“Veio da vivência como gestora e como enfermeira obstetra, de ver o quanto as pessoas precisam desse serviço e o quanto é difícil conseguir um profissional para atender crianças com neurodivergência”, explica.

Para Tamara, saúde pública, obstetrícia e terapia ocupacional estão interligadas por um mesmo propósito: cuidar das pessoas de forma integral.

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O nascimento do grupo Acolher e Crescer

Essa visão ampliada do cuidado resultou na criação do grupo Acolher e Crescer, voltado ao apoio de famílias atípicas. A iniciativa surgiu a partir de um projeto desenvolvido em parceria com a Secretaria de Estado da Saúde, envolvendo os 23 municípios do território dos Cocais.

Dentro desse projeto, Batalha se destacou ao desenvolver um fluxograma de atendimento para crianças com transtornos neurodivergentes, especialmente o autismo. O modelo foi reconhecido pela eficácia e premiado tanto no âmbito do projeto quanto na Mostra de Experiências Exitosas realizada pelo Conselho Estadual de Secretários Municipais (COSEMS).

Ao final do projeto, ficou claro que o cuidado precisava continuar. “Percebemos que cuidar de crianças atípicas vai muito além de cuidar só da pessoa com o transtorno. É preciso cuidar da família, dos cuidadores”, relata Tamara, ao explicar que o grupo passou a ser um espaço permanente de acolhimento e orientação.

Acolhimento, escuta e enfrentamento do preconceito

O contato direto com essas famílias revelou desafios que vão além da saúde. Para Tamara, o preconceito ainda é uma das maiores dores enfrentadas por pais e responsáveis.

“O que mais me toca é ver o quanto o preconceito ainda é tão presente, inclusive dentro da própria família e da sociedade”, afirma.

Ela destaca que muitas crianças não são bem recebidas nem compreendidas em diferentes ambientes, como a escola e os espaços públicos. Esse cenário reforçou sua busca por uma formação que permitisse atuar de forma mais direta, oferecendo suporte e ajudando a construir caminhos de inclusão e respeito.

Uma rede de apoio construída a partir das necessidades reais

O grupo Acolher e Crescer funciona de forma integrada, com a participação das Secretarias Municipais de Saúde, Assistência Social e Educação. O objetivo central é oferecer apoio integral às famílias, considerando aspectos emocionais, sociais, educacionais e de saúde.

As atividades incluem grupos terapêuticos conduzidos por psicólogas, orientações sobre direitos da pessoa com deficiência, acesso a benefícios, informações de saúde com diversos profissionais e diálogo com educadores para fortalecer práticas inclusivas nas escolas. Todo o planejamento é feito a partir das necessidades apresentadas pelas próprias famílias.

“A cada encontro, a gente trabalha uma temática diferente, de acordo com o que elas precisam e pedem”, explica Tamara, ressaltando que a escuta é o ponto de partida de todas as ações.

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Desafios e avanços no cuidado às crianças atípicas

Segundo ela, um dos maiores desafios enfrentados pelas famílias no Brasil é a falta de políticas públicas mais inclusivas, especialmente no acesso à assistência terapêutica. Dentro das possibilidades do município, o grupo tem buscado ampliar o acesso, orientar famílias e fortalecer a rede de cuidado.

Tamara destaca avanços importantes no diagnóstico precoce, que hoje ocorre de forma mais rápida do que no passado. “Antigamente, o diagnóstico demorava em média três anos. Hoje, conseguimos fechar em cerca de seis meses”, afirma, destacando que esse acolhimento inicial é fundamental para orientar as famílias e ajudá-las a compreender os próximos passos.

A pandemia como um marco profissional e humano

Outro momento marcante em sua trajetória foi o período da pandemia da Covid-19. Em meio à crise sanitária, Tamara assumiu a Direção-Geral do Hospital Municipal, enfrentando um dos maiores desafios de sua carreira.

Ela relembra o impacto psicológico e emocional da responsabilidade, mas também a força do trabalho coletivo.

“Com a colaboração de todos os profissionais de saúde, conseguimos passar pela pandemia com muitos batalhenses bem atendidos e curados”, afirma.

Participar do processo até o encerramento da ala Covid e a chegada da vacinação foi, segundo ela, uma experiência que marcou profundamente sua vida profissional e pessoal.

Rotina intensa, fé e olhar para o futuro

A rotina intensa, com dedicação praticamente contínua ao trabalho, trouxe momentos de reflexão e desafios pessoais. Ainda assim, Tamara afirma ser grata pelas conquistas e acredita estar no caminho certo.

“Sou imensamente grata por tudo que tenho e acredito que vale a pena toda dedicação”, afirma.

Para o futuro, ela reforça que informação é a base de qualquer conquista e destaca o desejo de tornar as famílias cada vez mais orientadas e fortalecidas para lutar por melhorias. Novos projetos já estão sendo pensados para os próximos anos, sempre com o objetivo de ampliar o cuidado, o acolhimento e a inclusão.

Ao integrar a série especial “Orgulho dos que nascem por aqui”, a história de Tamara Medeiros reforça que cuidar da saúde é, acima de tudo, cuidar de pessoas — e que esse cuidado, quando feito com escuta, compromisso e sensibilidade, transforma realidades e ajuda a construir um futuro mais justo para Batalha.