Amar não fere: educar para o respeito é um dever urgente da sociedade

Violência contra a mulher exige educação, cuidado, escuta e compromisso diário de todos

EDITORIAL – Há notícias que não pedem pressa, pedem silêncio. Não para calar, mas para refletir. Para que a dor de uma história não seja apenas mais um número, mais um caso que passa e logo se perde na memória coletiva.

Quando uma mulher perde a vida em um contexto de violência, não é apenas uma tragédia individual. É um alerta social. Algo falhou antes. Falhou no diálogo, na educação emocional, na capacidade de aceitar o fim, no entendimento mais básico do que é amor.

É preciso dizer, com todas as letras: amor não controla, não persegue, não ameaça, não agride. Amor cuida. Amor respeita. Amor sabe ir embora quando o outro decide partir.

Ensinar isso não é tarefa exclusiva da escola ou do Estado. Começa dentro de casa. Ensinar meninos a lidarem com frustrações, a respeitarem limites, a compreenderem que ninguém pertence a ninguém. Ensinar que não existe justificativa para a violência — nem ciúme, nem raiva, nem orgulho ferido.

Da mesma forma, é urgente ensinar meninas e mulheres a nunca normalizarem agressões. Nem as palavras duras, nem o controle disfarçado de cuidado, nem o medo silencioso. Violência psicológica também machuca. E, muitas vezes, é o primeiro passo de um ciclo que termina de forma irreversível.

Os números reforçam a gravidade do problema. O Brasil figura entre os países mais violentos do mundo para mulheres, ocupando a quinta posição no ranking global de feminicídios, segundo dados da ONU e do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Em média, cerca de quatro mulheres são mortas por dia por razões de gênero. Não é um dado frio. É um grito.

Diante disso, não basta indignação momentânea. É preciso compromisso contínuo. Escuta ativa. Apoio às vítimas. Denúncia. Políticas públicas eficazes. E, sobretudo, uma mudança cultural profunda, que comece cedo e seja reforçada todos os dias.

Falar sobre isso é desconfortável. Mas silenciar é perigoso. Cada conversa pode salvar. Cada orientação pode proteger. Cada gesto de respeito ajuda a construir um futuro onde amar não seja um risco.

Que a dor não seja em vão. Que ela nos ensine. Que ela nos mova. Porque proteger mulheres não é um favor — é um dever coletivo, humano e urgente.