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Infância interrompida: tragédia no aterro de Teresina expõe desafios sociais

David Kauan tinha 12 anos e sonhava em ser policial. Morreu atropelado por um trator enquanto dormia em busca de realizar um desejo simples: comprar uma bicicleta para trabalhar.

Na madrugada do último sábado (21), um menino de apenas 12 anos teve a vida brutalmente interrompida em meio a um cenário que não deveria fazer parte da rotina de nenhuma criança. David Kauan Silva da Costa morreu após ser atropelado por um trator enquanto dormia coberto por papelão, no aterro sanitário de Teresina. Ele havia saído de casa escondido com um único objetivo: juntar dinheiro suficiente para comprar uma bicicleta motorizada e ajudar a família.

David era natural de Miguel Alves, mas vivia com a mãe e o padrasto na Vila Dagmar Mazza, zona Sul da capital. Estudava o 7º ano na escola pública da comunidade e sonhava em ser policial. Segundo a avó, Maria Albetiza, o garoto era trabalhador, carinhoso e movido pelo desejo de cuidar dos que amava.

Foto: Arquivo/Família

“Ele queria dar uma pizza e um açaí para a mãe porque tinha tirado uma nota boa na escola. Descobrimos isso só depois, lendo a prova guardada na mochila”, contou emocionada.

Tragédia e mobilização

David foi ao lixão escondido. Dormiu com frio, sob papelões, e não foi visto pelo operador da máquina que fazia a movimentação do material. O acidente causou comoção e acendeu um alerta sobre a presença de crianças em áreas de risco extremo, como os lixões. O tratorista prestou socorro e arcou com parte dos custos do caixão. Já a família e a comunidade se uniram para conseguir o valor necessário ao sepultamento no município natal do menino, onde ele foi enterrado no domingo (22).

A comoção mobilizou vizinhos, professores e até desconhecidos, que arrecadaram doações. A avó divulgou uma chave PIX para quem quiser colaborar com as despesas: 86988924954 (Maria Albetiza Silva).

Sonhos interrompidos

Mesmo com dificuldades na escola, David mostrava responsabilidade precoce. Tentava conseguir renda como catador, fazia bicos em caieiras de carvão e queria comprar um sofá para a mãe, além de pintar as paredes da casa. “Ele achava que era o homenzinho da casa. Tinha o sonho de ser alguém melhor, de não deixar faltar comida. Era como se quisesse carregar o mundo nas costas”, desabafou a avó.

David também era muito ligado aos animais: cuidava de um coelho, um galo e um cachorro chamado Beethoven. A mãe, adoentada e afastada do trabalho, não conseguiu impedir as saídas do menino, apesar dos alertas e proibições.

Foto: Reprodução/Renato Andrade/Cidadeverde.com

Investigações e resposta das autoridades

A Prefeitura de Teresina informou que acompanha o caso e que a empresa responsável pelo aterro presta assistência à família. Uma sindicância foi aberta pela Eturb (Empresa Teresinense de Desenvolvimento Urbano) para apurar eventuais falhas na segurança do local. Segundo a nota oficial, o aterro funciona 24h com vigilância armada, mas isso não impediu a tragédia.

Em nota, o prefeito de Teresina, Sílvio Mendes, classificou o caso como uma fatalidade e afirmou que o espaço é um aterro sanitário, não um lixão, destacando que a presença de crianças não é permitida.

Repercussão e cobranças

O caso ganhou atenção do Ministério Público do Trabalho (MPT) e do Tribunal de Contas do Estado (TCE), que reforçaram a necessidade urgente de políticas públicas que erradiquem os lixões e promovam a inclusão dos catadores em condições dignas de trabalho.

Foto: Reprodução

O MPT ressaltou que o trabalho infantil é ilegal e precisa ser denunciado. Um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) está em discussão com municípios piauienses para garantir o encerramento de lixões, a estruturação de cooperativas e a adoção da coleta seletiva, com foco na proibição do trabalho infantil.

“Que não seja em vão”

A família de David não quer vingança. A avó diz que não culpa o operador do trator e espera que a morte do neto leve à mudança real. “Se o lixão continuar, que ao menos tenham refletores, carro-pipa, condições para quem trabalha lá. Que a mãozinha dele ajude a transformar aquele lugar”, afirmou.

Foto: Reprodução/Renato Andrade/Cidadeverde.com

David Kauan deixou a escola, os cadernos, os brinquedos e os animais de estimação — mas também deixou um legado. Um alerta para as desigualdades, para a infância roubada, para os sonhos interrompidos pela ausência de direitos básicos. Que sua memória inspire mais dignidade, respeito e responsabilidade social. Porque nenhuma criança deveria morrer assim.