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Bel Lima, voz de Batalha: sanfona, memória e o hino da Festa do Bode

Cantor, compositor e sanfoneiro batalhense, Bel Lima reúne décadas de carreira

Em uma carreira construída entre baterias, sanfonas e composições, Bel Lima — natural de Batalha — se afirma como referência do forró no Nordeste e como voz que ajuda a delinear a identidade cultural de sua cidade.

Em entrevista ao Diário de Caraíbas, o artista falou sobre as origens familiares, o encontro com o repertório de Luiz Gonzaga, a trajetória até o primeiro disco e o nascimento da música que ganhou espaço no repertório oficial da Festa do Bode.

Raízes e o primeiro contato com a música

Bel Lima lembra com precisão as primeiras referências que o empurraram para a vida musical. Neto do saxofonista Manoel Fabiano, cresceu em um ambiente onde a música fazia parte da rotina. “Meu avô me incentivou, ele me colocou dentro da música”, afirmou. O estímulo familiar, segundo ele, foi decisivo para que a música se tornasse caminho profissional e fonte de enfrentamento das dificuldades da vida.

Aos primeiros passos como instrumentista, Bel passou pela bateria antes de assumir o canto e a sanfona. Foi essa trajetória por diferentes funções em grupos locais que o preparou para a carreira solo. “Eu comecei a tocar bateria, depois fui aprendendo um pouco de sanfona. Hoje me acompanho — canto e toco — mas na banda há outro sanfoneiro que assume a execução mais pesada”, explicou.

Foto: Arquivo/Pessoal

O artista lembra ainda do momento pessoal de virada: a gravação do primeiro CD, registrada entre 1999 e 2000 em Recife. O álbum, intitulado A Última Semente, trazia já uma homenagem a Luiz Gonzaga e, para Bel, representou o início oficial de sua caminhada como compositor e intérprete.

Foto: Arquivo/Pessoal

A influência de Luiz Gonzaga e a defesa do forró

A relação com Luiz Gonzaga — “o Rei do Baião” — é central na trajetória de Bel Lima. Ele afirma que Gonzaga e outros nomes do forró pé de serra sempre orientaram sua obra: “Sou Luiz Gonzaga, Dominguinhos… a cultura nordestina é a maior cultura que existe no nosso país”, disse, ao explicar a motivação de manter viva essa tradição.

Dominguinhos e Bel Lima – Foto: Arquivo/Pessoal

O cantor guarda com carinho o convite que o colocou no cenário nacional: em 2012, foi o único músico piauiense convidado a se apresentar no Galo da Madrugada, em Pernambuco, na programação que homenageou o centenário de Luiz Gonzaga. Para Bel, o reconhecimento de públicos e pares — incluindo elogios de músicos que “entendem de música” — justifica anos de dedicação.

De Fortaleza ao disco

Bel Lima narra com detalhes uma lembrança decisiva ocorrida em Fortaleza. Em apresentações com o compadre Fonseca Júnior, o público o comparou a Gonzaga e os empresários locais o incentivaram a tocar acompanhado de sanfona. Relata que recebeu apoio para comprar um instrumento e, em pouco tempo, já dominava repertório do mestre: “Em uma semana eu peguei três músicas de Luiz Gonzaga… e me apresentei”, contou.

Foto: Arquivo Pessoal

Esses episódios, conforme relatou, abriram espaço para que gravasse e vendesse discos, construindo a base do que viria a ser sua carreira mais sistematizada. Ele reconhece o papel de amigos e mentores — em especial André Travasso e Fonseca Júnior — na etapa inicial: “Eles me deram força, colocaram harmonia nas músicas, me ajudaram a compor e a gravar”.

A música do Bode

A canção que hoje é associada à Festa do Bode nasceu a pedido do professor Genival Machado, segundo Bel. Ele conta que compôs a música rapidamente, arcando apenas com o custo de estúdio, sem intenção principal de competir por prêmio. “Eu não sabia que essa música era para concorrer… eu não fiz a música para ganhar dinheiro. Eu fiz a música para tocar na Festa do Bode”, disse.

No concurso em que as canções foram votadas por aplauso, a composição de outro autor acabou ficando em primeiro lugar, mas, nas palavras de Bel, “a que toca mesmo é a minha” — aquela que passou a ser cantada na festa, ganhou adesão popular e se integrou ao repertório coletivo. O trecho que ele destaca como representativo é o chamado repetido do refrão: “Eu vou pra cidade do bode…”, que, segundo o compositor, sintetiza o convite festivo e a convocação popular que o evento promove.

Foto: Arquivo/Pessoal

Além do valor simbólico, a música consolida um elo prático: coroando memórias e celebrações locais, ela funciona como elemento de identidade do evento e reforça a presença artística de Bel na festa que celebra a caprinocultura e a cultura regional.

Responsabilidade e orgulho

Este ano, Bel será o artista responsável por abrir os shows da XVI Festa do Bode. Sobre a expectativa, declara mistura de nervosismo e satisfação:

“A abertura da Festa do Bode para mim é sempre um orgulho… a gente tem que prestigiar os artistas da casa”.

Ele ressalta o compromisso de ensaios e preparação para entregar um trabalho bem feito: “Quando você faz o seu melhor e faz com amor, sempre faz bem feito”.

O papel de artista local que abre a programação também foi concebido por Bel como momento de visibilidade para outros músicos da cidade: “Não só eu, há muitos que precisam de apoio. A questão de a gente fazer o trabalho de abertura é uma satisfação muito grande”.

Foto: Arquivo/Pessoal

Perguntado sobre o que o motiva a seguir na vida musical, Bel faz uma reflexão centrada no reconhecimento cultural e no mérito: “A motivação é ser reconhecido pelos gonzaguianos… eu me orgulho muito disso, de estar defendendo a cultura nordestina”. Ele relativiza as dificuldades vividas na profissão — “tive que engolir um bocado de sapo” — e afirma que o que alcançou decorre de esforço e merecimento, longe de uma narrativa de vitimização.

Sobre sua identidade artística atual, Bel se apresenta como cantor e intérprete que preserva e celebra o forró pé de serra, sem perder a vitalidade do show ao vivo. Ele reconhece limites técnicos próprios (“não sou sanfoneiro para fazer toda a execução pesada”) e destaca o papel da banda para completar a performance. A consciência sonora e a dedicação mostram um artista que se construíu ao longo do tempo por prática, parcerias e persistência.

Memória, lugar e patrimônio cultural

Ao longo da conversa, fica claro que a trajetória de Bel está entrelaçada à história musical da região. Seu percurso — das bandas locais às jornadas por Fortaleza, Recife e outros polos nordestinos — traduz a mobilidade artística típica de muitos forrozeiros que buscam espaço em circuitos regionais. Ainda assim, ele ressalta o vínculo com Batalha e o orgulho por ser reconhecido por seu próprio público:

“O reconhecimento que eu quero do meu povo, eu já tenho… é o respeito que eles têm por mim”.

A história do músico também ajuda a contar uma parte da memória cultural local: referências a festas, bailes, rádios e a circulação de discos caseiros formam o pano de fundo de uma carreira construída na convivência com o público.

Foto: Arquivo/Pessoal

Como artista da casa e autor do tema da música da festa do bode, Bel transita entre a preservação cultural e a afirmação de sua própria carreira — um percurso que, nas suas palavras, não é explicado apenas, mas merecido.

A Festa do Bode, que reúne tradição, gastronomia e celebração comunitária, encontra na voz de Bel Lima um dos seus representantes mais próximos: não apenas por ser autor de uma canção que o público adotou, mas por carregar, em sua biografia e repertório, parte da história musical de Batalha e do Nordeste.