O que Batalha ensinou? Padre Franciermerson fala sobre acolhida e novos caminhos

Administrador Paroquial reflete sobre aprendizados, “detalhes da fé” e o futuro no clero.

O Diário de Caraíbas traz uma entrevista exclusiva com o Padre Franciermerson do Nascimento Araújo, atual Administrador Paroquial da Paróquia São Francisco de Assis, em Batalha. O jovem sacerdote reflete sobre a missão que o Bispo Dom Edivalter Andrade lhe confiou na comunidade e comenta os bastidores de sua próxima etapa.

Em novembro, Padre Franciermerson assumirá novos desafios na Diocese de Parnaíba: além de ser o novo Pároco da Paróquia Santa Luzia, ele irá contribuir diretamente na formação de novos clérigos, atuando como professor no Seminário Diocesano.

Foto: Reprodução

Na conversa, o Padre Franciermerson detalha como a fé começou ainda na infância, o trabalho para consolidar a identidade da Paróquia São Francisco, sua paixão pelo zelo litúrgico (“É no detalhe que Deus fala”) e o que de mais precioso Batalha deixa em seu coração.

“O acolhimento e a amizade verdadeira fazem Deus se manifestar como um afago em nossas vidas.”

Assista ao vídeo da entrevista na íntegra ou confira a transcrição completa abaixo. O Padre Franciermerson detalha os aprendizados deste um ano, os motivos de sua nova designação e deixa uma mensagem especial aos fiéis de Batalha neste momento de transição de tarefas.

O Início do Caminho

Diário de Caraíbas: Padre, o senhor é muito jovem, 27 anos, mas a sua história com a Igreja é antiga. Queremos saber: Como a fé começou na sua vida, lá em Piracuruca? O que levou aquele menino, que começou como coroinha aos 3 anos, a ver no sacerdócio o seu caminho?

Padre Franciermerson: Penso que uma das maiores graças que tive na minha trajetória foi, justamente, ter ingressado no grupo de coroinhas aos três anos de idade. A partir disso, minha vida começou a ser modelada, né? Porque o itinerário que a gente faz é sempre um itinerário de formação. Por mais que, talvez, na infância, na adolescência ou até mesmo na vida adulta, aconteçam altos e baixos, não deixa de existir em nossa vida um itinerário, né? Um processo. E o meu processo começou justamente sendo coroinha, aos três anos de idade. Lembro que uma das maiores graças que tive foi conviver com o Monsenhor Estevão — hoje vigário em Esperantina — Monsenhor Estevão Mitros, um polonês, um homem muito simples e cheio de virtudes. Aquilo que ele fazia me encantava de tal forma que eu olhava para ele e dizia: ‘Quando eu crescer, ou melhor, quando for adulto, desejo ser um homem como este homem.’ Então, a minha vida começou a se modelar a partir daí. Claro, né? A gente tem altos e baixos, idas e vindas, mas nunca saiu do meu coração o desejo de ser um padre como aquele padre, né? Penso que minha vida começou a se modelar, e minha fé começou a ser alicerçada ali, naquele altar, lá na capela de São Sebastião, no bairro Guarani.

Diário de Caraíbas: Após a ordenação diaconal e o trabalho em São Gonçalo, o senhor foi ordenado presbítero. Como foi esse momento final de ‘sim’ a Deus? O que, no seu coração, define a alegria e o peso de ser Padre?

Padre Franciermerson: O que define ser padre, no meu coração, é justamente ser uma resposta de Deus. Penso que a vida do padre é marcada pela busca constante de responder aos anseios de Deus — primeiro, no nosso próprio coração, né? A vida do padre é marcada por uma resposta, do começo ao fim da nossa vida ministerial, que é a seguinte: eu sou de Deus, eu pertenço a Deus. E, dessa forma, vamos procurando responder. Por isso, uma das minhas maiores preocupações — talvez eu possa usar mesmo essa palavra, ‘preocupação’ — é justamente ser resposta de Deus. Ser resposta de Deus na minha própria vida, ser resposta de Deus na paróquia onde estou, ser resposta de Deus na vida do povo que a Igreja me confia. Então, a minha vocação vai se confirmando justamente porque procuro responder a esse anseio de Deus: ser resposta de Deus, e somente de Deus.

O Administrador Paroquial em Batalha

Diário de Caraíbas: O senhor chegou a Batalha como Administrador Paroquial da Paróquia São Francisco de Assis, uma das mais novas da Diocese. Como foi a sua recepção e qual foi o maior desafio que o senhor encontrou ao assumir uma comunidade em pleno desenvolvimento?

Padre Franciermerson: Aqui, a paróquia é muito acolhedora. Penso que todo padre que vem para Batalha, em especial para a Paróquia de São Francisco, vai encontrar uma paróquia muito acolhedora. As pastorais são acolhedoras, as pessoas que frequentam aqui são acolhedoras, as comunidades também. Penso que me senti muito acolhido aqui, na Paróquia de São Francisco — não só acolhido, mas realizado. Um dos maiores desafios que tive, e que ainda tenho nesses dias aqui, é justamente criar uma identidade para a paróquia em si. Fazer com que o território da Paróquia de São Francisco seja, de fato, reconhecido como um território paroquial. Como assim? As comunidades precisam entender que agora têm uma paróquia, e que essa paróquia é a Paróquia de São Francisco de Assis. Essa paróquia precisa se desenvolver, e se desenvolver ainda mais. Nossa paróquia tem apenas seis anos. Eu sou o segundo padre a passar por aqui. Durante esse tempo, tanto o padre Hilderlan, meu antecessor, quanto eu, nos preocupamos em concluir a construção do templo. Quando cheguei, encontrei o templo ainda sem a pintura externa — graças a Deus, conseguimos finalizar. Agora, penso que a nova missão do padre aqui, na Paróquia de São Francisco, é justamente organizar a pastoral. E o que é isso? É organizar as comunidades, as pastorais da matriz, os setoriais — enfim, criar um organismo pastoral que possa dar vida à paróquia. Sempre digo isso aqui, tanto às pastorais quanto aos movimentos e comunidades — é até um apelo: as pastorais, as comunidades e os movimentos precisam dar vida à paróquia. Não esperar tudo acontecer, mas agir, tocar o barco para frente. Penso que o que mais necessitamos na paróquia é, justamente, essa imagem e essa compreensão de que somos paróquia, de que fazemos parte dela. Esse é o maior desafio.

Diário de Caraíbas: O senhor é muito conhecido pelo seu zelo na liturgia, atuando até como Cerimonialista Diocesano. Como o senhor viu a importância da liturgia e do seu ministério no dia a dia dos fiéis de Batalha? Há alguma lembrança, uma celebração ou momento que o tenha marcado profundamente neste último ano?

Padre Franciermerson: Desde sempre, quando eu era coroinha, fui muito apaixonado pela liturgia, pelo zelo litúrgico. Penso que a Igreja vive justamente por conta da liturgia. Como assim? Porque é na liturgia que a comunidade se encontra; é na liturgia que a comunidade agradece a Deus pelos seus feitos; mas é, sobretudo, na liturgia que somos capazes de vislumbrar a Deus — no pão e no vinho que são consagrados em Corpo e Sangue do Senhor. Atualmente, sou o assessor diocesano de liturgia, e isso é uma grande missão. Para um padre jovem, como eu, que tenho apenas um ano de sacerdócio, é algo muito exigente. Por quê? Porque temos obrigações diocesanas a cumprir, mas também obrigações paroquiais, e é preciso conciliar as duas coisas. Posso dizer que a liturgia sempre foi — e sempre será — algo muito importante e essencial na minha vida, porque foi nela que compreendi meu chamado vocacional. Uma celebração que muito me marcou aqui — ou melhor, três celebrações — foi o Tríduo Pascal: a Quinta-feira Santa, a Sexta-feira Santa e o Sábado Santo. Foi o meu primeiro Tríduo Pascal como presbítero, e sempre fui muito atento aos mínimos detalhes. Gosto de fazer com que as pessoas entendam que o detalhe, às vezes, é o que faz a diferença. Hoje, a nossa sociedade se preocupa muito com o mundo e se esquece de olhar os detalhes. E é no detalhe que Deus fala. Por isso, as celebrações do Tríduo Pascal foram muito marcantes para mim. Porque ali, Deus ressignificou muitas coisas na minha vida — primeiro, na vida ministerial, né? Mas, sobretudo, Ele me mostrou que ali, naquele altar, fazendo aquilo, eu me sinto verdadeiramente realizado. E, ao mesmo tempo, torno o povo realizado, correspondendo àquela celebração, a esse mistério tão rico que é celebrado.

Diário de Caraíbas: O Padre Franciermerson sente que deixa para a Paróquia São Francisco de Assis? E, mais importante: O que Batalha deixa para o senhor em termos de aprendizado e vivência?

Padre Franciermerson: Penso que o que posso deixar para a Paróquia de São Francisco é justamente a alegria de fazermos parte daquilo que é de Deus. Deus não nos chama para sermos pessoas infelizes; pelo contrário, Ele nos chama para experimentarmos uma felicidade tão plena e verdadeira que transborda. Nosso corpo transborda essa felicidade — a felicidade de Deus. Isso é algo que carrego muito comigo, inclusive no meu lema de ordenação: ‘Participa da alegria do teu Senhor.’ Por onde passo — seja quando estava na Paróquia de São Gonçalo, seja agora na Paróquia de São Francisco de Assis — procuro transparecer isso: a alegria de pertencer a Deus. Porque é o próprio Deus quem nos chama. E uma das coisas que Batalha vai deixar no meu coração é, justamente, esse sentido de acolhida. O povo de Batalha é muito acolhedor. Sempre digo, até em tom de brincadeira: em Batalha, só dá errado se a pessoa for ruim, porque aqui o povo é maravilhoso. Aqui ninguém tem luxo, ninguém tem grandes riquezas. São pessoas simples. E é justamente a simplicidade desse povo que encanta. Por mais que existam dificuldades — e sempre vão existir — o pessoal de Batalha tem uma acolhida tão forte, tão verdadeira, que isso toca o coração. Cada abraço, cada gesto, cada aperto de mão faz Deus responder, talvez, às muitas inquietações que carregamos por causa das correrias da vida, dos pesos que suportamos. O acolhimento e a amizade verdadeira fazem Deus se manifestar como um afago em nossas vidas. Essa é uma marca do povo de Batalha.

Novas Missões e Futuro

Diário de Caraíbas: A notícia da sua transferência para a Paróquia Santa Luzia, em Parnaíba, surpreendeu muitos fiéis. Gostaria que o senhor nos explicasse o motivo dessa mudança. Qual é essa nova missão que o Bispo Dom Edivalter Andrade lhe confiou?

Padre Franciermerson: Como eu disse anteriormente, sou assessor diocesano de liturgia da Diocese de Parnaíba. E, por si só, o ofício já exige muito do assessor, tanto em formação quanto em presença nas paróquias e em auxílio — ou melhor, assessoria. Além disso, acumulo outros ofícios, como, por exemplo, ser mestre de celebrações do bispo da diocese. Ou seja, toda celebração que o bispo realiza, ou que tenha caráter diocesano, compete a mim preparar. Isso já exige bastante. Também sou referencial para os ministros extraordinários da Eucaristia, além de acumular aqui o ministério para a Palavra, acompanhando os ministros da Palavra. Tudo isso exige muito de quem ocupa esses ofícios — em termos formativos, de presença e de auxílio. É um grande desafio, porque tudo se concentra na sede da diocese, em Parnaíba, enquanto eu estou em Batalha, duas horas e meia de viagem. Então, eu me deslocava muito para Parnaíba para organizar, assessorar, participar de reuniões e cumprir outras tarefas que o bispo confiará a mim no próximo ano, como colaborar com a formação no seminário como professor e criar uma escola diocesana de canto litúrgico. Isso exige que a presença do assessor diocesano seja mais frequente, e inevitavelmente vou me ausentar mais da paróquia. Por isso, o conselho, junto com o bispo, decidiu designar-me para uma paróquia menor em Parnaíba. O pessoal de Batalha ficou muito triste, e eu também, porque me apeguei muito, e o povo também se apegou a mim. Mas entendo que os desígnios de Deus são sempre melhores que os nossos. Por mais que eu queira ficar, eu também sei que preciso responder e dar conta dos ofícios confiados a mim — tanto da paróquia quanto dos ofícios diocesanos. Então, acolhi com muita solicitude a transferência e a minha nomeação. A Paróquia de Santa Luzia é uma paróquia boa, pequena, mas muito estruturada. Vou lá para ser o mesmo padre Franciermerson que sou aqui, levando alegria e simplicidade. Penso que isso é importante, essencial.

Diário de Caraíbas: Com essa missão dupla de ser professor no Seminário e Pároco na Paróquia Santa Luzia, quais são as suas maiores expectativas para esta nova etapa da sua vida sacerdotal? Como o senhor se sente ao retornar para a vida acadêmica e pastoral em Parnaíba?

Padre Franciermerson: Ser professor… eu nunca pensei em ser professor, né? Ainda mais de futuros padres. É uma missão exigente, porque vamos contribuir para pessoas que, futuramente, estarão no mesmo presbitério, nas paróquias, e também junto conosco na missão. Penso que é muito exigente, de certa forma. É um peso grande, porque vamos formar a consciência daqueles jovens que vão entrar no propedêutico para, futuramente, realizarem coisas como nós estamos realizando — ainda mais no que compete à liturgia, ao zelo, à busca pela ciência litúrgica, pelo ministério que transcende a nossa existência no ato litúrgico. Em relação à Paróquia de Santa Luzia, penso que também precisarei organizar muita coisa, porque ainda estou terminando a pós-graduação em liturgia. Isso significa que irei me ausentar da paróquia para assistir às aulas e cumprir outras atividades. Mas, estando em Parnaíba, esse deslocamento se torna um pouco mais fácil. A Paróquia de Santa Luzia é acolhedora. Desde que fui nomeado, muitas pessoas começaram a me receber bem, e isso me alegra. Por mais que as pessoas ainda estejam tristes com a saída do Padre James, para vir para cá, ser acolhido já faz meu coração ficar mais tranquilo, calmo e sereno.

Diário de Caraíbas: O Padre James de Sousa Amaral assumirá a Paróquia São Francisco de Assis. Que mensagem de boas-vindas e confiança o senhor deixa para o seu sucessor?

Padre Franciermerson: Padre James e eu nos conhecemos há muito tempo. Sempre participamos do que, na época, era chamado de Colônia dos Encontros de Zonal. Ele é de Piripiri e eu sou de Piracuruca; pertencemos ao mesmo zonal. Nesses encontros, sempre tivemos um contato muito forte. Isso também repercutiu no seminário e agora no clero. Penso que a Paróquia de São Francisco tem muito a ganhar com o Padre James, porque ele é uma pessoa muito inteligente, organizada e comprometida com o que faz. Isso é bom para a paróquia, como eu disse: a paróquia precisa ter uma identidade própria, e vai competir ao Padre James realizar essa missão de consolidar a imagem da paróquia de São Francisco de Assis. Faço votos de que o Padre James seja muito feliz aqui, assim como eu fui e sou. Sou muito feliz e realizado. Penso que ele também será, até porque é próximo de Piripiri, sua cidade natal, e também de Esperantina, onde já foi vigário. E aqui, por si só, a paróquia já é muito acolhedora, como eu disse. Então, ele vai se sentir bem, e eu espero e rezo a Deus para que se sinta plenamente acolhido. Uma coisa que disse a ele foi: ‘Você vai se dar bem e ser feliz em Batalha.’

Diário de Caraíbas: Que palavra de fé, carinho e esperança o senhor gostaria de deixar para os fiéis de Batalha neste momento de transição e despedida?

Padre Franciermerson: Aquilo que vou dizer parte do meu lema: nós somos sempre convidados a participar da alegria do nosso Senhor — do Senhor que nos chama à vida, do Senhor que nos convida a experimentar as mais profundas experiências de amor, mas, sobretudo, do Senhor que nos chama à missão no nosso cotidiano. Penso, com toda a certeza do meu coração, que as pessoas de Batalha deveriam compreender mais a alegria de ser de Deus. Se compreendêssemos isso melhor, nossas igrejas estariam repletas; talvez até sobrassem lugares para todos, porque a demanda seria muito grande. Portanto, a mensagem que deixo para o povo de Batalha é justamente esta: participar da alegria do Senhor — do Senhor que nos chama, que nos convida e que nos convoca constantemente a experimentar seu amor na Eucaristia, na Palavra e na comunidade.