Cobrar o feito, não o feitor: o verdadeiro ‘pai’ é a população

Esquecemos que o verdadeiro dono das obras públicas é o povo

EDITORIAL – Parece que cada obra precisa de um “pai” — e quanto mais pomposa for a inauguração, mais candidatos à paternidade aparecem. É a velha disputa de quem trouxe, quem pediu, quem assinou, quem foi “o responsável”. Enquanto isso, a pergunta que deveríamos fazer se perde no barulho: a obra foi feita? E, mais importante ainda, foi feita direito?

Essa necessidade de rotular um pai para cada ação pública é o retrato de uma política que ainda se alimenta do personalismo, e não do compromisso. O eleitor, por sua vez, entra no jogo, torcendo como se fosse campeonato de paternidade, quando o foco deveria ser outro: a execução, a entrega, o resultado. O que importa não é quem fez o pedido, mas se o asfalto saiu do papel e chegou ao chão.

Quantos “pais” já ouvimos prometer filhos que nunca nasceram? Obras anunciadas, licitações suspensas, ordens de serviço que viram lembranças de palanque. No fim, o que sobra são as fotos, os discursos e o eterno jogo de empurra. A cada ciclo, a história se repete — e a população segue assistindo de camarote, sem perceber que, se há alguém que pode se dizer dono dessas obras, esse alguém é o próprio povo. Afinal, os recursos vêm dos impostos que cada cidadão paga.

Curiosamente, dados do Portal da Transparência do Registro Civil mostram que entre 4% e 7% das crianças brasileiras são registradas sem o nome do pai. Uma estatística que, de certa forma, simboliza o que também acontece com nossas obras públicas: nascem sem dono verdadeiro, e quando aparecem “pais”, geralmente é depois que o bebê já está na maternidade.

Mas se é de “dar a César o que é de César”, vale lembrar que ideias e projetos também têm genealogia. Há quem tenha plantado a semente, quem a regou e quem agora posa para a foto com o fruto nas mãos. Talvez o ex-prefeito João Messias tenha sido o avô dessa história, que viu a necessidade, correu atrás e conseguiu abrir o caminho. Que os “tios” que se dizem pais, então, tenham ao menos a decência de fazer o filho crescer.

E que nós, o verdadeiro “pai coletivo” — a população — aprendamos, de uma vez por todas, a cobrar o feito, não o feitor. Porque o nome no registro pode mudar, mas quem paga a conta e cria a criança é sempre o povo.