Antes da Matriz, a devoção: a origem da fé em São Gonçalo em Batalha

A fé que antecedeu a construção da Matriz e se tornou marca da cultura local

Antes mesmo de existir como cidade, Batalha já tinha um santo para chamar de seu. A primeira imagem de São Gonçalo chegou à região entre 1715 e 1725, décadas antes do início da construção da Igreja Matriz, erguida entre 1794 e 1814. Dessa raiz antiga nasceu uma devoção que atravessa mais de três séculos e que se tornou parte profunda da identidade religiosa e social batalhense.

Para o historiador George Machado Tabatinga, a longevidade explica muito da força dessa fé. “São mais de três séculos de devoção. Talvez seja o principal motivo dessa identidade religiosa ser tão forte em nossa comunidade.” A tradição católica de festejar santos, trazida da Europa, encontrou em Batalha um povo que manteve viva, geração após geração, a prática de celebrar, agradecer e pedir a intercessão do padroeiro.

George Machado Tabatinga | Foto: Reprodução/ACLJ

Com o tempo, o festejo se consolidou como um marco no calendário local. Entre 22 de dezembro e 1º de janeiro, a cidade vive dias de encontros, promessas pagas, novenas, procissões e celebrações que misturam fé e afetos. Para George, a continuidade é o que sustenta a tradição:

“A tradição de um povo vem da prática. Aquilo que se deixa de praticar vai sendo esquecido. Ainda bem que não aconteceu com São Gonçalo. Afinal, mais de 300 anos de devoção não são 300 dias.”

Apesar da força da devoção, muitos batalhenses conhecem pouco sobre a vida e a história do santo. George aponta que, ao longo dos anos, faltou aprofundar esse conhecimento na comunidade local. Em Portugal, São Gonçalo — chamado carinhosamente de São Gonçalinho — é padroeiro dos arquitetos, protetor dos violeiros e santo casamenteiro das mulheres mais velhas.

Milagres também lhe são atribuídos, mas poucos sabem disso. Foi essa lacuna que motivou o historiador a pesquisar o tema por quatro anos e publicar, em 2017, um ensaio sobre a vida do padroeiro, hoje disponível na Casa Paroquial.

A história de São Gonçalo está entrelaçada à própria história de Batalha. Sua imagem, sua festa e sua devoção acompanharam o surgimento do povoado, a formação da freguesia, a construção da Matriz e a consolidação cultural da cidade. A cada dezembro, esse vínculo se renova quando moradores, visitantes e filhos da terra se reúnem para celebrar, agradecer e renovar a fé.

“Glorioso São Gonçalo, rogai por nós que recorremos a vós”, encerra George, ecoando uma oração que atravessa séculos e continua viva no coração de quem celebra o santo padroeiro.

Foto: Reprodução

Esta matéria integra a série especial Batalha de São Gonçalo, publicada pelo Diário de Caraíbas nos dias 7, 14 e 21 de dezembro, revisitando a história, a tradição e a fé que moldam o festejo mais aguardado da cidade.