Para Padre Leonardo, São Gonçalo é identidade viva do povo de Batalha

Reflexões sobre fé, história e tradição às vésperas do festejo

Para quem nasce em Batalha, São Gonçalo não é apenas um santo celebrado em dezembro. Ele está entranhado na história, na memória coletiva e na identidade de um povo que aprendeu, ao longo de séculos, a se reconhecer na fé, na tradição e no reencontro. É a partir desse olhar que o padre Leonardo de Sales, batalhense e atualmente em missão em Portugal, reflete sobre o significado do festejo e sua força simbólica para a cidade.

Segundo o sacerdote, Batalha vai além do território e da geografia. É formada pela soma de sua gente, dos afetos, das histórias, das emoções e das tradições que se mantêm vivas, geração após geração. Nesse contexto, a devoção a São Gonçalo ocupa um lugar central. “São Gonçalo é uma identidade nossa”, afirma. Mesmo sendo um santo português, de Amarante, ele se tornou parte inseparável da história local, a ponto de o município carregar seu nome: Batalha de São Gonçalo.

Foto: Reprodução/Facebook

Padre Leonardo se reconhece como fruto dessa tradição. Cresceu imerso na fé do povo e na piedade popular que circunda o festejo. Para ele, celebrar São Gonçalo é mergulhar na própria história, revisitar memórias e reafirmar a identidade enquanto cristão, sacerdote e filho de Batalha.

“Essa festa significa muito para mim. É um reencontro com quem eu sou”, resume.

Entre as lembranças mais marcantes, ele destaca o poder que o festejo sempre teve de reunir famílias. Dezembro, em sua memória, era sinônimo de espera e alegria. Parentes que viviam em São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Teresina e outras cidades retornavam à terra natal. O santo, segundo ele, parecia exercer um verdadeiro “ímã”, capaz de atrair de volta os filhos ausentes. “São Gonçalo congrega. Ele reúne”, recorda.

Quando fala dos momentos mais simbólicos do festejo, o padre aponta três que, para ele, falam diretamente ao coração. O primeiro é a alvorada e o Levante do Mastro, no dia 22 de dezembro. Um instante em que, pouco a pouco, a praça se enche de gente: crianças, jovens, adultos, idosos, famílias inteiras. A chegada do mastro e da imagem do padroeiro transforma o espaço em um cenário de emoção coletiva, difícil de descrever, mas fácil de sentir.

Outro momento marcante é a celebração do dia 31 de dezembro, com a tradicional Missa da Virada. Padre Leonardo já presidiu essa celebração diversas vezes e guarda na memória a imagem do patamar da igreja e das praças completamente tomadas por fiéis. Para ele, trata-se de um acontecimento singular, que atrai pessoas de várias cidades e transforma Batalha em ponto de encontro de fé e esperança.

Mas é na procissão que o sacerdote encontra o ápice da experiência espiritual. Caminhar pelas ruas, ao som da Banda de Música Manoel Fabiano, observar as casas ornamentadas, as velas acesas e os rostos emocionados faz com que a fé se misture à saudade. Durante o percurso, ele relembra pessoas que já partiram, famílias que ajudaram a construir a história da paróquia e da cidade. Quando a imagem retorna ao patamar da igreja, o sentimento é de contemplação e gratidão.

Para o padre, o festejo também carrega uma dimensão profunda de identidade e pertencimento. Batalha, segundo ele, é a única cidade da região que tem um santo padroeiro de forma tão marcante, o que fortalece o sentimento de diferenciação e identidade coletiva. Não no sentido de superioridade, mas de singularidade. A fé em São Gonçalo, vivida a partir dos valores do Evangelho, da missão e da comunidade, ajuda a moldar o jeito de ser batalhense.

Ao mesmo tempo, o sacerdote chama atenção para a necessidade de cuidar da tradição. Ele reconhece que os tempos mudam, mas alerta para a importância de preservar aquilo que é essencial e identitário. Para ele, alguns elementos do festejo perderam força ao longo dos anos, o que exige reflexão, zelo e compromisso para que a essência não se perca diante das transformações.

Neste ano, o festejo traz como tema “São Gonçalo, missionário da esperança, ajuda-nos a acolher, viver e anunciar o Menino Deus”, uma mensagem que, segundo o padre, dialoga diretamente com o tempo atual. Para ele, esperança não é algo distante, mas uma realidade que já nasce, se constrói e se renova no cotidiano, especialmente quando a fé se traduz em cuidado com o outro, com a cidade e com a comunidade.

Foto: Divulgação/PASCOM

A série especial “Batalha de São Gonçalo” se encerra neste domingo (21), às vésperas do início oficial do festejo. Na madrugada desta segunda-feira (22), quando o relógio marcar 5h30, os acordes da Banda de Música Manoel Fabiano ecoarão no patamar da Igreja Matriz, anunciando a alvorada que abre as festividades. Mais tarde, às 17h30, o Levante do Mastro reunirá novamente o povo em torno da fé, da tradição e da esperança que, há séculos, seguem sustentando a identidade de Batalha.