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Olhares que constroem memórias: fotógrafos de Batalha contam suas trajetórias

Desafios, sensibilidade e profissão, fotógrafos falam sobre o ofício de eternizar histórias

Em janeiro, mês em que se celebra o Dia do Fotógrafo, o Diário de Caraíbas ouviu profissionais que transformaram o olhar em ferramenta de trabalho, memória e sensibilidade. Mais do que registrar imagens, eles compartilham histórias de persistência, aprendizado e responsabilidade, revelando os bastidores de uma profissão que vai muito além do clique.

A seguir, os relatos de fotógrafos que atuam em Batalha e que, cada um à sua maneira, ajudaram a construir — e continuam construindo — a fotografia como ofício, expressão e meio de vida.

Carlos Henrique — Global Fotos

O primeiro contato de Carlos Henrique com a fotografia aconteceu em 2012, durante um intercâmbio, quando conviveu com amigos que tinham o hábito de registrar viagens e experiências. A princípio, tudo não passava de curiosidade e hobby. Com uma Nikon P510, começou a fotografar cenas do cotidiano, amigos e familiares, sem imaginar que aquilo se tornaria profissão.

Carlos Henrique | Foto: Reprodução/Instagram

Ao retornar para Batalha em 2013, seguiu registrando momentos, especialmente ligados ao meio religioso do qual fazia parte. Com o passar do tempo, veio o aprofundamento técnico, a troca de equipamentos e o desenvolvimento de um olhar mais apurado. Aos poucos, percebeu que havia espaço para atuar profissionalmente, ainda que inicialmente como renda complementar. Foi nesse processo gradual que a fotografia deixou de ser apenas passatempo e passou a integrar seu projeto de vida.

Entre os principais desafios enfrentados, Carlos destaca a dificuldade de fazer o público compreender que a fotografia é uma profissão como qualquer outra. Por muito tempo, ouviu que o fotógrafo era apenas alguém que “apertava o botão de uma câmera cara”, desconsiderando o conhecimento técnico, artístico e humano envolvido em todo o processo. Com a evolução tecnológica, a fotografia se tornou mais acessível, mas também mais exigente. Hoje, segundo ele, o profissional precisa dominar não apenas a câmera, mas edição, redes sociais, atendimento e gestão do próprio negócio.

Um dos momentos mais marcantes de sua trajetória foi a decisão de abrir, junto com amigos, uma empresa voltada exclusivamente para a fotografia. A criação da Global Fotos simbolizou a transição definitiva do hobby para o profissional, trazendo novas responsabilidades, aprendizados intensos e a confirmação de que a fotografia havia se consolidado como profissão.

Atualmente, Carlos enxerga a fotografia como mais do que fonte de renda. Para ele, é um elo de conexão com as pessoas, uma forma de contar histórias e eternizar momentos únicos. A responsabilidade de registrar acontecimentos importantes vem acompanhada de planejamento rigoroso, equipamentos de backup e atenção constante, mas também de um sentimento de honra e confiança quando um cliente escolhe seu trabalho para guardar memórias que não se repetem.

Atuar em Batalha, segundo ele, exigiu persistência e criatividade, especialmente em um contexto onde empreender fora de setores tradicionais parecia improvável. Esse cenário moldou sua postura profissional e seu olhar, ensinando a valorizar cada oportunidade e a crescer junto com o próprio mercado local.

Onde encontrar: O trabalho do fotógrafo pode ser acompanhado no Instagram: [@global.fotos]

Eli Mesquita Carvalho — Poeta das Lentes

A fotografia entrou na vida de Eli Mesquita ainda em 2010, quando ganhou sua primeira câmera, uma Fujifilm simples, trazida pela irmã do Paraná. O equipamento o acompanhava em momentos com amigos, sem qualquer pretensão profissional. Em 2013, veio uma câmera superzoom, usada por muitos anos para registrar paisagens — sua grande paixão — como pôr do sol, lua e cenas da natureza.

Foi apenas em 2017 que Eli começou a fotografar pessoas, inicialmente vizinhas. No ano seguinte, decidiu transformar o hobby em trabalho, mesmo com equipamentos ainda limitados para a demanda profissional. Começou cobrando valores simbólicos, mas sempre buscando entregar o melhor resultado possível. As câmeras desse período, segundo ele, são guardadas até hoje com carinho, como parte de sua história.

Eli Mesquita Carvalho | Foto: Reprodução/Arquivo Pessoal

Entre os principais desafios, Eli destaca a conquista de equipamentos adequados e a construção de uma identidade fotográfica própria. Atuando em diferentes segmentos — eventos, ensaios externos e estúdio — ele se define como um fotógrafo generalista. Questionado sobre o avanço da tecnologia e o surgimento de ferramentas como a inteligência artificial, ele é direto: fotografar vai além de criar imagens; é capturar emoções, gestos e sentimentos que nenhuma tecnologia consegue reproduzir.

Um momento marcante de sua trajetória aconteceu em 2018, quando foi fotografar, gratuitamente, o casamento de uma prima. Ao chegar ao local, descobriu que se tratava de um casamento comunitário. Com a câmera em mãos, passou a atender diversos casais em meio a uma situação intensa e inesperada. Foi ali, segundo ele, que se inseriu definitivamente no mundo dos eventos.

Hoje, Eli não se imagina longe da fotografia. Além de profissão, ela se tornou uma forma de escape emocional, ajudando a enfrentar momentos de estresse e ansiedade. Foi por meio da fotografia que conseguiu tirar sonhos do papel e alcançar realização pessoal. Na prática, aprendeu lições que ninguém ensina, como lidar com clientes inadimplentes e administrar as dificuldades do mercado.

Com o tempo e a experiência, a responsabilidade de registrar momentos únicos passou a ser encarada com mais tranquilidade e segurança. Fotografar em Batalha, em um período em que a cidade ainda tinha poucos profissionais na área, contribuiu para o surgimento de novos nomes e para o fortalecimento da identidade fotográfica local — um processo que, segundo ele, beneficiou tanto os fotógrafos quanto a cidade.

Onde encontrar: O trabalho do fotógrafo pode ser acompanhado no Instagram: [@poeta.das.lentes]

Marilu Sousa — Marilu Fotografias

Para Marilu Sousa, a fotografia sempre esteve ligada à memória afetiva. Fotografar, inicialmente, era uma forma de guardar momentos, especialmente em família. O incentivo de outras pessoas, que elogiavam seu olhar e a estimulavam a investir na área, foi determinante para que ela enxergasse a fotografia como profissão e desse início à jornada.

Marilu Sousa | Foto: Reprodução/Instagram

O primeiro grande desafio foi o investimento inicial. Desempregada na época, Marilu contou com o apoio de amigos e conhecidos para adquirir sua câmera, inclusive por meio de uma rifa. Com o avanço da tecnologia, ela observa que a fotografia expandiu seus campos de atuação, permitindo maior qualidade e precisão na entrega dos trabalhos.

Para Marilu, cada ensaio é único. Não há um trabalho específico mais marcante, pois cada momento carrega sua própria história e significado, o que torna cada registro especial. Pessoalmente, a fotografia representa a preservação de memórias; profissionalmente, tornou-se uma importante fonte de renda.

Na prática, aprendeu que os desafios da profissão vão além do clique: comunicação com o fotografado, competitividade, desvalorização do trabalho e a necessidade de bons equipamentos fazem parte do cotidiano. Ainda assim, ela destaca o sentimento de felicidade e reconhecimento ao assumir a responsabilidade de registrar momentos que ficarão eternizados na vida das pessoas.

Fotos feitas em pontos emblemáticos da cidade, como a Igreja Matriz de São Gonçalo, ajudaram a ampliar a visibilidade de seu trabalho, permitindo que suas imagens alcançassem novos públicos e fortalecessem sua trajetória profissional.

Onde encontrar: O trabalho da fotógrafa pode ser acompanhado no Instagram: [@marilu_fotografias]

Witherman Carvalho

O início de Witherman Carvalho na fotografia aconteceu de forma simples, com registros do cotidiano feitos pelo celular. Observador, gostava de fotografar cenas comuns do dia a dia e, com o tempo, passou a receber incentivos de pessoas que reconheciam seu olhar diferenciado. A decisão de investir em uma câmera e se aprofundar tecnicamente veio naturalmente, à medida que começou a ser procurado para registrar momentos importantes da vida das pessoas.

Witherman Carvalho | Foto: Reprodução/Arquivo Pessoal

Um dos maiores desafios enfrentados foi aprender a se posicionar como profissional e compreender o valor do próprio trabalho. No início, como muitos fotógrafos, aceitou condições que hoje entende como parte do processo de aprendizado. Com a popularização da fotografia, o diferencial deixou de ser apenas técnico e passou a estar na identidade, sensibilidade e forma de contar histórias.

Witherman destaca como marcantes os trabalhos ligados à igreja, pela carga emocional e simbólica envolvida, e os ensaios de família, que representam memórias destinadas a atravessar o tempo. Atualmente, a fotografia é, para ele, trabalho e também válvula de escape pessoal, uma maneira de desacelerar, observar e valorizar o simples.

Na prática, aprendeu que a maior parte do trabalho não está apenas em fotografar, mas em editar, organizar, dialogar com clientes e assumir responsabilidades. Ao registrar momentos únicos, procura agir com cuidado e respeito, buscando imagens naturais e verdadeiras, nas quais as pessoas possam se reconhecer.

Fotografar em Batalha influencia diretamente seu olhar. A proximidade entre as pessoas e os laços fortes da cidade aumentam a responsabilidade, mas também tornam os registros mais autênticos. O cotidiano local e as histórias próximas moldaram sua forma de fotografar e compreender a profissão.

Onde encontrar: O trabalho do fotógrafo pode ser acompanhado no Instagram: [@withermanph]


Mais do que imagens, histórias

Os relatos mostram que a fotografia, para além da técnica, é feita de escuta, sensibilidade e responsabilidade. Em comum, todos compartilham o compromisso de transformar momentos em memória, lidando com desafios, mudanças tecnológicas e relações humanas que fazem da profissão um exercício constante de aprendizado.

Mais do que apertar um botão, fotografar é contar histórias — e, em Batalha, essas histórias seguem sendo registradas por olhares atentos e comprometidos com o tempo e com as pessoas.