Estudo aponta impactos do hábito de mentir

Pesquisas indicam dessensibilização cerebral e aumento do estresse

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Mentir, mesmo ocasionalmente, pode gerar efeitos mensuráveis no cérebro, segundo estudos recentes que investigam os impactos neurológicos, emocionais e sociais da desonestidade.

Pesquisadores da University College London (UCL) identificaram que pequenas mentiras reduzem, com o tempo, a resposta emocional negativa associada ao ato. A principal autora do estudo, a psicóloga experimental Tali Sharot, explica que a amígdala — região ligada às emoções — reage negativamente quando a pessoa mente para obter benefício pessoal. Porém, essa reação diminui com a repetição, favorecendo mentiras cada vez maiores.

Especialistas apontam que o fenômeno cria um efeito dominó: à medida que o cérebro se adapta, o comportamento tende a se intensificar. O neurologista Alejandro Anderson, do Instituto de Neurologia de Buenos Aires, afirma que a repetição reduz a aversão inicial ao ato, tornando a mentira mais fácil e frequente ao longo do tempo.

Além da dessensibilização, mentir exige alto esforço mental. Segundo os pesquisadores, diversas áreas do cérebro são ativadas para sustentar uma versão falsa, incluindo regiões responsáveis pelo controle cognitivo, detecção de conflitos e interpretação social. O processo envolve inibir a verdade, manter a narrativa inventada na memória e monitorar possíveis inconsistências.

Esse esforço contínuo aumenta a ativação do sistema de estresse, podendo provocar fadiga mental, irritabilidade e dificuldade de concentração. Psicólogos destacam que a discrepância entre o que a pessoa pensa e o que comunica pode afetar a autoestima, gerar culpa persistente e reduzir o bem-estar psicológico.

Outro impacto apontado pelos especialistas é o efeito nas relações pessoais. Mesmo quando não é descoberta, a mentira pode enfraquecer a confiança e a proximidade emocional. A psicóloga Macarena Gavric Berrios explica que o receio de ser descoberto pode levar a sentimentos de isolamento e dificultar vínculos genuínos.

Segundo os especialistas, mentir não é considerado um traço biológico ou uma característica fixa da personalidade, mas um comportamento aprendido. Entre os motivos mais comuns estão evitar conflitos, preservar a imagem pessoal, obter vantagens, encaixar-se em grupos ou lidar com emoções difíceis.

Do ponto de vista clínico, romper o hábito exige reconhecer que a mentira pode ter sido uma estratégia de adaptação no passado, mas que passa a gerar mais desconforto do que alívio. A mudança tende a ocorrer de forma gradual e pode envolver apoio terapêutico para lidar com a ansiedade associada à honestidade.

Os estudos indicam que, embora pareça inofensivo em alguns contextos, o hábito de mentir pode impactar a saúde mental, a forma de pensar e a qualidade das relações ao longo do tempo.