A arte como herança: a trajetória da batalhense Vilmara Dias

Aos 23 anos, artista transforma talento herdado em profissão

Em Batalha, a arte não chegou por acaso à vida de Vilmara Dias. Aos 23 anos, a artista independente encontrou na criação não apenas uma profissão, mas um propósito. A trajetória, oficialmente iniciada em julho de 2024 e aprofundada em agosto do mesmo ano, carrega uma história que começou muito antes, dentro de casa.

Filha do artista F. Dias, já falecido, Vilmara cresceu cercada por tintas, desenhos e pela dedicação do pai à arte. Hoje, mantém seu estúdio na própria cidade, onde desenvolve obras autorais e trabalhos sob encomenda, consolidando uma identidade marcada, segundo ela, “pela intensidade, pela sensibilidade e pela busca constante de evolução”.

Foto: Reprodução/Arquivo

O legado que começou em casa

O contato com o desenho surgiu ainda na infância. “Percebi ainda criança, quando desenhar era algo natural para mim. Meus pais começaram a notar e incentivar, e isso me fez entender que havia algo especial ali, que a arte iria fazer parte da minha vida”, relata.

Uma das primeiras lembranças marcantes foi um desenho realista do pai, feito após sua morte. “Um desenho realista do pai, um tempo após sua morte, um dos primeiros contatos com o desenho realista”, recorda.

F. Dias já atuava como artista quando Vilmara era criança. Ela cresceu acompanhando o trabalho do pai, o que influenciou diretamente sua escolha profissional. “Cresci vendo esse universo de perto, o que influenciou muito minha visão e meu caminho. A arte sempre fez parte.”

Além da técnica, ela afirma ter aprendido disciplina e respeito pela profissão. “Meu pai foi um artista dedicado e expressivo. Com ele, aprendi disciplina e respeito pela arte e, principalmente, que o artista precisa ter verdade no que faz.”

Foto: Reprodução/Arquivo

Vilmara também faz questão de destacar o papel da mãe, Maria de Lourdes, a Dona Lurdinha, na sua formação. Segundo ela, o incentivo continuou mesmo após a morte do pai. “Seu incentivo mesmo após a morte do pai, as vezes que ela comprava cadernos de desenho para incentivar, e suas honrosas lições no decorrer do processo de criação do Ateliê.”

Ela acrescenta que aprendeu valores que considera fundamentais. “Além da técnica, sua criação me ensinou a ter humildade, competência, dedicação, respeito e compromisso. Sou imensamente grata ao incrível trabalho que minha mãe fez.”

Foto: Guilherme Gomes/PASCOM

Embora tenha poucas obras do pai em mãos, Vilmara buscou conhecer outras produções dele ao longo do tempo, visitando casas de clientes e amigos em Batalha. F. Dias é autor, por exemplo, da pintura do painel de São Miguel Arcanjo na capela da localidade Caraíbas II. Para ela, conhecer essas obras fortalece a sensação de continuidade.

“Sinto que carrego um legado, que foi construído antes de mim.”

Quando a arte virou profissão

Apesar do talento percebido desde cedo, houve momentos de questionamento. “Como qualquer pessoa, já questionei se deveria seguir algo mais ‘seguro’. Mas a arte sempre me chamou de volta.”

O ponto de virada ocorreu quando percebeu o alcance do próprio trabalho. “Quando percebi que minhas obras começaram a alcançar pessoas de forma profunda e genuína, quando percebi que havia demanda real pelo meu trabalho e poderia estruturar a arte como uma atividade profissional.”

Registro de uma obra na casa de um batalhense, Louro (Ô de Casa), um dos primeiros apoiadores do artista.

Hoje, grande parte da renda vem da produção artística. “Ainda organizo meu tempo com estratégia, mas meu foco principal é viver e crescer dentro desse propósito.”

Sobre o cenário local, ela avalia que ainda há desafios. “A valorização do artista regional ainda é limitada, mas acredito muito na força das pessoas que verdadeiramente amam a arte.” Mesmo diante das dificuldades, afirma que nunca pensou em desistir. “Já houve momentos de dúvida, mas nunca de desistência. A minha única opção sempre foi dar certo.”

Foto: Reprodução/Arquivo

Técnica, processo e identidade

Vilmara trabalha com diferentes técnicas e materiais, explorando o realismo, pinturas a óleo e acrílico, além de esculturas em madeira e argila. Segundo ela, a evolução ocorre na busca por identidade, precisão e aprimoramento técnico.

O processo criativo começa pelo conceito. “Minhas obras nascem principalmente do conceito. Primeiro vem a intenção, o que quero comunicar. A partir disso, organizo composição, símbolos e materialidade. O sentimento está presente, mas ele é estruturado com técnica.”

Foto: Reprodução/Arquivo

O tempo de produção varia. “Trabalhos menores podem levar alguns dias, mas obras maiores ou mais conceituais podem levar semanas ou meses, considerando estudo, execução e acabamento e materiais.”

Ela desenvolve tanto criações autorais quanto trabalhos sob encomenda. “Gosto das encomendas pois elas me desafiam a interpretar o universo do cliente sem perder minha identidade artística, mantendo sempre minha assinatura.”

Foto: Reprodução/Arquivo

Bloqueios criativos, segundo Vilmara, fazem parte do processo. “Entendo bloqueios como parte do processo. Quando acontecem, busco referência, estudo técnica ou simplesmente me afasto por um momento para reorganizar ideias. Disciplina é tão importante quanto inspiração.”

Antes de iniciar uma obra, mantém um ritual simples: organizar o espaço, preparar os materiais e visualizar mentalmente a composição. “Pintar exige presença.”

Permanência, propósito e futuro

Entre as principais inspirações está a ideia de permanência. “Me inspira a ideia de permanência, criar algo que tenha impacto duradouro e valor além do tempo.”

Morando atualmente em Batalha, onde mantém o estúdio, ela pretende expandir o alcance do próprio nome. “Meus planos são expandir meu nome para além da minha cidade, fortalecer minha identidade artística e alcançar novos espaços.”

Foto: Reprodução/Arquivo

As encomendas podem ser feitas pelo WhatsApp (86) 99813-9074 ou pelo Instagram @vilmara_diasx, onde compartilha processos e novas obras.

Ao refletir sobre o significado da arte em sua vida, Vilmara resume:

“A arte me deu felicidade, sentido e propósito. Não é apenas trabalho, é o meu ‘filé mignon’. Por meio dela, construo permanência e também honro a memória do meu pai e a criação da minha mãe, porque minha arte carrega minha história.”