Quando a vida pede coragem: a história de Saúde Mendes

História de luta contra a leucemia mobilizou família, amigos e doadores de sangue

Foto: Arquivo/Reprodução

Maria da Saúde Mendes de Araújo, 45 anos, moradora da localidade Canta Galo, zona rural de Batalha, construiu sua vida entre o trabalho no campo e o cuidado com a família. Casada há 30 anos, mãe de três filhas e avó de três netos, ela começou a trabalhar ainda criança.

Órfã de pai desde os cinco anos, Saúde iniciou cedo a rotina na roça. Aos 10 anos passou a trabalhar em casa de família, atividade que exerceu até os 15 anos. Ao longo da vida adulta, tornou-se trabalhadora rural e, hoje, é aposentada por invalidez permanente. Também atua como consultora de beleza e dedica grande parte do tempo às tarefas domésticas.

Desde 2022, no entanto, sua rotina ganhou um novo cenário.

“Minha rotina se divide entre casa e hospital desde 2022”, resume.

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Os primeiros sinais

Os primeiros sintomas surgiram no início de 2022. No dia 13 de janeiro, Saúde começou a perceber fraqueza intensa, manchas roxas nas pernas e sonolência, dentre outros sintomas.

Ela realizou exames, mas inicialmente não houve diagnóstico conclusivo. Com o passar dos dias, os sintomas se intensificaram: quedas de pressão, desmaios e aumento da fraqueza.

Em 19 de junho de 2022, após idas e vindas ao hospital de Batalha, ela foi internada em Esperantina com febre de 39 graus e fortes dores na perna direita.

Três dias depois, seu quadro havia piorado. Ela já não conseguia caminhar.

Na bolsa, carregava um hemograma. Durante atendimentos anteriores, segundo relata, o exame não havia sido analisado. Na internação em Esperantina, pediu que o médico verificasse o resultado.

A resposta veio imediatamente.

“Ele olhou o exame e disse: ‘Você está com leucemia. Tem menos de 10% de plaquetas e precisa ir para Teresina agora’”, lembra.

A notícia que parecia irreal

O impacto da notícia foi imediato. Mesmo assim, Saúde conta que demorou a acreditar no diagnóstico.

Segundo ela, o médico orientou que fosse diretamente para Teresina, pois aguardar regulação hospitalar poderia representar perda de tempo diante do risco elevado de hemorragia causado pelas plaquetas extremamente baixas.

Ainda no hospital, ela relata que fez uma chamada de vídeo com o marido e com duas das filhas que moram em São Paulo, Raiane Mendes e Railene Mendes.

“Todos entraram em choque, mas eu entrei em negação. Parecia que aquilo não era real, como se fosse apenas um pesadelo.”

Raiane é mãe de uma menina. Railene tem dois filhos, um menino e uma menina.

Saúde e as netas mais novas | Foto: Arquivo/Reprodução

A busca por tratamento

Na madrugada de 23 de junho de 2022, acompanhada de uma cunhada, Saúde seguiu para Teresina, capital do Piauí. Começava ali uma nova etapa: a busca por um leito hospitalar.

Ela permaneceu em observação até conseguir a transferência para o Hospital São Marcos. Foi realizado o exame de medula óssea e, quatro dias depois, saiu o diagnóstico definitivo: Leucemia Mieloide Aguda (LMA), com 82,5% de células doentes.


A Leucemia Mieloide Aguda é um tipo agressivo de câncer que se desenvolve na medula óssea, responsável pela produção das células do sangue. Na doença, células jovens sofrem mutações genéticas e passam a se multiplicar de forma desordenada. O acúmulo dessas células doentes impede a produção adequada de glóbulos vermelhos, glóbulos brancos e plaquetas, deixando o organismo vulnerável a infecções, anemia e sangramentos.


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O momento em que a ficha caiu

Quando recebeu o diagnóstico detalhado e as explicações sobre o tratamento, Saúde conta que ainda tentava resistir à realidade.

Mas houve um momento em que tudo mudou.

A médica explicou que os primeiros 30 dias seriam decisivos e que o tratamento começaria imediatamente com quimioterapia intensiva. Ela ficaria ligada à medicação por sete dias consecutivos, em um processo que destruiria células doentes e também células saudáveis.

Outro ponto marcante foi a informação de que precisaria permanecer até 60 dias internada.

Nesse momento, o peso da situação finalmente chegou.

“Quando ela falou que eu ficaria até 60 dias sem poder sair do hospital, meu mundo desabou. Eu tinha uma criança de seis anos que precisava muito de mim. Foi a primeira vez que chorei”, conta.

A filha mencionada é Rayssa Mendes, que mora com ela em Batalha.

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A quimioterapia e a corrente de solidariedade

A quimioterapia começou cerca de uma hora após a conversa com a médica.

Vieram então os dias mais intensos do tratamento: febres de até 40 graus, necessidade constante de transfusões de sangue e plaquetas e complicações clínicas.

Doze dias depois, ela foi encaminhada para a Unidade de Terapia Intensiva (UTI).

Foi nesse momento que se formou uma rede de solidariedade envolvendo familiares, amigos e moradores da região. Uma campanha de doação de sangue mobilizou dezenas de pessoas.

Mais de 100 bolsas de sangue foram arrecadadas.

O prefeito de Batalha, José Luiz Alves Machado, disponibilizou uma van para transportar doadores até Teresina. O motorista Antônio Francisco, conhecido como Broa, se voluntariou para dirigir o veículo.

Familiares organizaram os grupos de doação e acompanharam os voluntários nas viagens de cerca de três horas até a capital.

“Foi uma corrente de amor”, resume Saúde.

Os dias difíceis na UTI

Para Saúde, o período na UTI foi o mais desafiador de todo o tratamento.

Sem acompanhantes e consciente durante grande parte do tempo, ela enfrentou momentos que descreve como extremamente difíceis.

“Eu não estava sedada. Vi e ouvi muitas coisas. Fiquei horas em fraldas sujas, gritei de sede. Foram momentos terríveis”, relata.

Durante os 19 dias em que permaneceu na UTI, perdeu 14 quilos e deixou de caminhar.

Após esse período, ainda enfrentou pneumonia e uma trombose na perna direita antes de receber alta hospitalar.

A primeira remissão e a nova batalha

Depois da alta, Saúde voltou para Batalha e iniciou um novo protocolo de quimioterapia, realizado uma vez por mês durante quatro meses.

Em dezembro de 2022, repetiu o exame de medula óssea. No início de janeiro de 2023, foi novamente internada em Teresina devido a uma segunda pneumonia.

Enquanto estava hospitalizada, recebeu o resultado do exame.

A leucemia havia retornado.

“Dizem que o raio não cai duas vezes no mesmo lugar. Mas caiu. Nesse momento meu chão faltou”, recorda.

Ela conta que chorou intensamente naquele dia, antes de reunir forças para iniciar um novo ciclo de tratamento e buscar um doador compatível para transplante de medula.

Cinco irmãos se dispuseram a realizar testes de compatibilidade. Três chegaram a fazer os exames e, entre eles, Leoni José de Araújo apresentou compatibilidade total.

“Ele me disse que queria muito ser o compatível para poder salvar minha vida”, lembra.

A viagem para São Paulo

Em maio de 2023, Saúde recebeu contato do Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo, informando que havia vaga para o tratamento.

No entanto, não havia vaga disponível em casa de apoio.

Mesmo assim, ela decidiu seguir viagem e arcar com os custos de permanência.

Mais uma vez, amigos e conhecidos organizaram uma mobilização solidária. Um rifão foi realizado para arrecadar recursos.

Em 30 de junho de 2023, Saúde embarcou para São Paulo.

Durante quase seis meses, permaneceu na cidade enfrentando a etapa mais delicada do tratamento: o transplante de medula óssea.

Enquanto lutava pela própria vida, convivia com a saudade da família que havia ficado no Piauí — o marido Raimundo, a filha pequena e a mãe idosa.

O transplante e a esperança

O transplante era considerado a principal possibilidade de controle da doença após a recidiva.

O doador foi seu próprio irmão.

“Somos do mesmo mês e sempre fomos muito ligados. Quando ele foi fazer o teste, disse que queria muito ser o compatível”, conta.

Foto: Arquivo/Reprodução

O resultado confirmou compatibilidade total.

“Foi uma felicidade enorme receber esse resultado.”

A força da família

Ao longo de todo o processo, Saúde destaca o papel da família e dos amigos.

Segundo ela, a experiência também trouxe aprendizados sobre relações e apoio.

“Quem é importante nunca soltou minha mão. Minhas filhas, meu marido, meus irmãos, minhas cunhadas, minhas primas e amigos de verdade.”

Foto: Arquivo/Reprodução

Ela também reconhece que algumas relações se afastaram durante o processo.

“Perdi amigos que pensei que tinha e ganhei amigos que não imaginava. Faz parte do processo. Os de verdade ficam.”

O olhar das filhas

Raiane e Railene acompanharam à distância uma parte da trajetória da mãe.

Para elas, o período foi marcado por sentimentos intensos e desafios inesperados.

“Foi um período muito difícil e desafiador. Jamais imaginaríamos passar por esse processo”, relatam.

Raiane e Railene – Foto: Reprodução/Instagram

As duas contam que, aos poucos, aprenderam a lidar com a situação e buscar formas de ajudar.

Um dos momentos mais marcantes foi a confirmação de que o transplante havia funcionado.

“Quando tivemos a confirmação de que a medula tinha pegado, foi um momento de alegria, esperança e gratidão.”

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Para elas, a mãe representa um exemplo de força.

“Nossa mãe é um exemplo de coragem e fé. A força dela sempre nos inspirou.”

O momento em que pensou não aguentar

Mesmo diante das dificuldades, Saúde afirma que nunca pensou em desistir.

Mas houve um dia em que o corpo pediu descanso.

Durante uma visita na UTI, o marido Raimundo conversou com ela e compartilhou palavras que, segundo ela, foram decisivas.

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“Ele me disse que tudo ia ficar bem, que havia muita gente me esperando e rezando por mim.”

A conversa teve um efeito imediato.

“Nesse momento me enchi de Espírito Santo e criei uma força sobrenatural para sair daquele lugar”, recorda.

O que o processo ensinou

Ao olhar para trás, Saúde afirma que a experiência transformou profundamente sua visão de vida.

“Hoje, olhando para trás, valeu a pena cada dia de luta.”

Ela diz que a doença mudou suas prioridades.

“Quando você está em um leito de hospital, tudo deixa de ser importante. Só Deus e a saúde passam a importar.”

A vida hoje

Mesmo após o transplante, a jornada não terminou.

Um ano após o procedimento, a doença voltou a se manifestar e ela precisou passar por novas infusões de medula óssea.

Foto: Reprodução/Arquivo

Atualmente, Saúde está há um ano e nove meses em remissão da leucemia, mas enfrenta outras complicações decorrentes do tratamento.

Há cerca de um ano e cinco meses, convive com a chamada Doença do Enxerto Contra o Hospedeiro (DECH), reação do organismo às células transplantadas. A condição afetou órgãos como olhos, fígado e esôfago.

Ela também desenvolveu hipertensão, problemas cardíacos e osteoporose avançada em decorrência do uso prolongado de medicamentos.

Hoje, toma mais de 900 comprimidos por mês.

Mesmo assim, mantém um olhar de gratidão.

“Sou muito feliz e grata porque estou viva. Esses medicamentos me permitem viver mais um dia.”

Uma mensagem para outras mulheres

No Dia Internacional da Mulher, Saúde deixa uma mensagem de encorajamento.

“Quero dizer às mulheres que nunca desistam de acreditar. Tudo tem um propósito e tudo passa.”

Ela também lembra que o processo de tratamento pode trazer mudanças físicas, como a perda de cabelo durante a quimioterapia, mas pede que isso não seja motivo de vergonha.

“Uma cabeça sem cabelo é um dos sinais mais bonitos de que você está vencendo o processo.”

Foto: Arquivo/Reprodução

Gratidão e esperança

Ao final da conversa, Saúde reforça que sua história não é definida apenas pela doença.

“Queria que as pessoas soubessem que um diagnóstico não determina o tempo de vida de ninguém.”

Ela afirma se sentir profundamente amada por Deus, pela família e pelas pessoas que fizeram parte da sua trajetória.

“Minha história não é triste. É um milagre de cada dia.”