Crise da água leva Batalha a audiência, mas solução ainda fica sem prazo

Empresa anuncia intervenção na Vila Kolping e promete acompanhar reclamações

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A audiência pública realizada nesta terça-feira (18), na Câmara Municipal de Batalha, colocou frente a frente moradores, vereadores, representantes da Prefeitura, da OAB e da Águas do Piauí para discutir um problema que se arrasta há meses e que já atinge diferentes bairros da cidade. O encontro terminou com a previsão de uma intervenção no Vila Kolping nas próximas três semanas, mas sem um cronograma apresentado para solucionar de forma geral o abastecimento no município.

A reunião começou por volta das 10h e teve participação presencial menor do que a dimensão das reclamações apresentadas ao longo dos últimos meses. Um dos moradores que falou durante a audiência reconheceu que gostaria de ver mais pessoas no local, mas ponderou que o horário poderia dificultar a presença de quem trabalha. A Câmara, por sua vez, exibiu um vídeo com relatos de moradores que não estavam presentes e recebeu um abaixo-assinado levado pela Associação de Radiodifusão Comunitária de Batalha.

O Ministério Público, que havia sido convidado, não participou. Em ofício lido na abertura, o órgão justificou a ausência pela existência de uma audiência judicial previamente marcada para a mesma data e pediu que futuros encontros sejam comunicados com maior antecedência ou definidos após diálogo com a instituição. O prefeito José Luiz Alves Machado também não compareceu e foi representado por Luiz Segundo; o vice-prefeito Nerioston Moraes participou da discussão.

Problema já havia chegado à Câmara

A audiência ocorreu após uma sequência de cobranças que começou, pelo menos, em 2025. Em março daquele ano, vereadores discutiram a falta de água na Vila Kolping e na Pedra do Letreiro e apontaram a existência de um poço que poderia ajudar a reduzir o problema, mas cuja utilização dependia da regularização do terreno.

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Em setembro de 2025, Câmara, Prefeitura e representantes da Águas do Piauí voltaram a discutir o abastecimento. Na ocasião, foram cobradas medidas como a instalação de bombas e boosters para melhorar a pressão em áreas mais elevadas.

A situação voltou ao centro do debate em abril deste ano, quando o Ministério Público ajuizou ação civil pública relacionada ao abastecimento da Vila Kolping. Em junho, o deputado estadual Henrique Pires também realizou uma vistoria na estrutura de abastecimento de Batalha e fez críticas à manutenção do sistema.

Na audiência desta terça-feira, o vereador Sargento Machado lembrou a reunião realizada em setembro de 2025 e afirmou que, naquela ocasião, os parlamentares haviam confiado em compromissos apresentados pela concessionária. Segundo ele, a expectativa era que os problemas da Vila Kolping e da Pedra do Letreiro fossem resolvidos.

“Infelizmente, a situação piorou”, afirmou Machado, ao cobrar um resultado da empresa.

Moradores relatam dias sem água

Antes da manifestação dos representantes da concessionária, a Câmara apresentou um vídeo produzido pela Rádio Batalha FM com relatos de moradores de bairros afetados pelo desabastecimento.

As gravações mostram pessoas relatando períodos de vários dias sem água, fornecimento apenas durante a madrugada, baixa pressão e necessidade de comprar água para beber ou realizar tarefas domésticas. Também aparecem relatos de idosos que precisam esperar durante a noite para tentar armazenar água e de famílias com crianças e pessoas com necessidades especiais enfrentando dificuldades.

Na Pedra do Letreiro, uma moradora afirmou que a água chega, em alguns períodos, por volta das 3h da madrugada e com pressão insuficiente para alcançar a caixa d’água. Ela cobrou que a concessionária garanta fornecimento regular e afirmou que as contas continuam chegando mesmo quando o serviço não está disponível.

“A gente tem o dever de pagar os talões, mas temos o direito também de ter água nas torneiras”, afirmou.

Outro morador afirmou que a falta de água já não estaria restrita aos bairros mais altos. Segundo ele, regiões como São Francisco também enfrentam interrupções ou baixa pressão.

Uma moradora que vive no centro relatou ter passado quatro dias sem água e precisado comprar água para beber. Ela afirmou ainda ter enfrentado dificuldades ao procurar atendimento na agência da concessionária.

Educação também sofre com abastecimento

O secretário municipal de Educação, Elvis Machado, apresentou outro efeito do problema: as dificuldades enfrentadas pelas escolas.

Segundo ele, uma escola de tempo integral localizada na região da Vila Kolping atende 186 alunos e uma creche atende outras 150 crianças. A falta de água teria obrigado a Prefeitura a instalar uma caixa de 5 mil litros em uma unidade e recorrer a caminhão-pipa para garantir o funcionamento.

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Machado também relatou demora para obter autorização para utilizar água em um ponto da concessionária. Segundo ele, um pedido encaminhado pela gestão municipal recebeu autorização cerca de um mês depois, período em que as unidades precisaram buscar alternativas para garantir o abastecimento.

O secretário afirmou que a situação interfere inclusive na alimentação dos estudantes e cobrou providências da empresa.

Prefeitura cobra solução imediata

Representando o prefeito, Luiz Segundo afirmou que a Prefeitura recebe reclamações frequentes sobre a falta de água e defendeu uma solução imediata. Segundo ele, o problema não está restrito à Vila Kolping e à Pedra do Letreiro, mas aparece em diferentes pontos da cidade.

O vice-prefeito Nerioston Moraes também cobrou uma intervenção rápida. Para ele, a situação exige medidas de curto prazo porque o período mais quente do ano tende a aumentar o consumo de água.

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“Não é mais uma questão de esperar como investimento, tem que ter uma intervenção o mais rápido possível”, afirmou.

Nerioston pediu ainda que a concessionária apresentasse compromissos com resultados em curto, médio e longo prazo. Segundo ele, a situação é conhecida pelas autoridades e vem sendo levada diariamente aos agentes públicos.

Vereadores pedem dados e cronograma

Durante a audiência, os vereadores apresentaram um requerimento assinado por todos os parlamentares presentes na discussão. O documento pede uma apuração detalhada das causas das interrupções ou deficiências no abastecimento e informações atualizadas sobre poços, bombas, reservatórios, adutoras, equipamentos e redes de distribuição.

Também foram solicitados dados sobre investimentos realizados e previstos, contratos, cronogramas de manutenção e obras e medidas emergenciais enquanto não houver uma solução definitiva. O requerimento ainda pede que Prefeitura, Ministério Público e demais órgãos competentes avaliem medidas administrativas e judiciais para garantir a regularidade do serviço.

Thyago Lustosa, que apresentou o documento, afirmou que a Câmara queria “respostas concretas, sem promessas” e cobrou informações sobre o que a Águas do Piauí havia efetivamente investido em Batalha.

O assessor jurídico da Prefeitura, Célio Augusto Machado Filho, questionou especificamente o cronograma de universalização. Segundo ele, o contrato de concessão prevê investimentos de R$ 8,5 bilhões até 2033, mas seria necessário conhecer a distribuição desses recursos e os prazos destinados a cada município, bairro e localidade.

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A cobrança incluiu a zona rural, onde o município possui diversas comunidades atendidas por sistemas próprios. O advogado perguntou se a concessionária assumirá a operação e manutenção desses sistemas e de que forma ocorrerá a integração à rede.

Concessionária diz que produção aumentou

Na apresentação feita durante a audiência, Célio Damásio, gerente executivo da Águas do Piauí, apresentou as ações realizadas pela empresa desde o início da operação no município.

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Segundo ele, foram feitas intervenções operacionais em poços, bombas, reservatórios e redes, além de ações de melhoria da pressão e de setorização do sistema. A concessionária afirmou que aumentou a produção de água, mas reconheceu que isso não significa que todos os consumidores estejam recebendo o serviço de forma adequada.

Célio explicou que pode haver situações em que a água esteja disponível na rede, mas não chegue às residências devido a problemas de distribuição, pressão, obstruções ou falhas em determinados trechos.

“Eu tô produzindo mais água. População tá falando, eu tô com mais problema”, resumiu o gerente ao explicar a diferença entre o aumento da produção e as reclamações dos consumidores. Segundo ele, a solução pode exigir a substituição de trechos da rede e outras intervenções de infraestrutura.

A empresa também informou que mantém equipes trabalhando em Batalha e que o plano de investimentos está em elaboração. Segundo a apresentação, o documento deverá ser concluído até janeiro de 2027 e indicará os investimentos previstos para cada região e bairro, com o objetivo de alcançar a universalização do abastecimento.

Vila Kolping tem intervenção prevista para três semanas

A medida com prazo mais definido anunciada pela concessionária foi destinada à Vila Kolping.

Célio Damásio explicou que o reservatório existente na região recebe água por retorno da própria rede e que parte desse volume não estaria sendo distribuída adequadamente. A solução apresentada é fazer uma ligação direta do poço à rede, evitando que a água precise passar pelo reservatório antes de chegar ao sistema de distribuição.

Segundo ele, a intervenção será realizada nas próximas três semanas. O gerente, porém, afirmou que será necessário verificar o resultado da obra depois da execução e que, caso o problema persista, os moradores deverão registrar novas reclamações para que a equipe identifique eventuais falhas na rede.

A explicação gerou reação do vereador Guilherme Machado, que questionou o que havia sido feito anteriormente na região do Esperança 2 e cobrou uma resposta específica para a Vila Kolping e a Pedra do Letreiro.

Depois de admitir que não havia respondido à pergunta sobre a interligação, Célio afirmou que a intervenção teve como objetivo fazer “setorização e ajuste de pressão” e classificou o procedimento como uma atividade operacional destinada a regularizar o abastecimento.

0800 vira ponto de divergência

O canal de atendimento da Águas do Piauí também foi um dos principais pontos de discussão.

Célio pediu que moradores apresentassem os protocolos de reclamações feitas pelo 0800 (canal telefônico gratuito de atendimento ao consumidor). Segundo ele, a empresa havia reforçado a equipe em Batalha e priorizaria os atendimentos registrados pelo canal. O gerente afirmou ainda que as ordens de serviço devem ser concluídas dentro dos prazos previstos no contrato.

A concessionária se comprometeu a acompanhar também as reclamações encaminhadas por canais institucionais do município. Janderson Araújo, coordenador de Responsabilidade Social, afirmou que o 0800 é o principal canal de atendimento, mas citou também a loja física e o programa Afluentes, voltado às lideranças comunitárias. Segundo ele, a empresa poderá disponibilizar um analista social para fazer a interlocução com a ouvidoria municipal.

O argumento, porém, encontrou resistência entre os moradores. Uma das participantes afirmou que as reclamações já eram feitas e que o problema continuava sem solução.

Célio respondeu que se comprometeria a atender as ordens de serviço abertas pelo 0800 dentro dos prazos estabelecidos pelo contrato.

Proposta de 30 dias não vira acordo

Na parte final da audiência, houve uma tentativa de estabelecer um prazo mais amplo para a solução do problema.

Foi apresentada uma proposta que previa prazo de 30 dias para o restante da zona urbana, além das áreas da Pedra do Letreiro e Vila Kolping, e a inclusão do povoado Bela Vista na discussão. A ideia era que, ao final desse período, houvesse uma resposta sobre a resolução dos problemas e, caso ela não fosse considerada suficiente, fossem adotadas medidas judiciais.

A proposta, porém, não aparece no material como um acordo formal assumido pela Águas do Piauí.

Em resposta, Célio reiterou o compromisso de atender as ordens de serviço abertas pelos canais oficiais dentro dos prazos contratuais. Janderson falou sobre o acompanhamento das reclamações pela empresa e por canais institucionais do município.

Uma moradora contestou a ideia de aguardar 30 dias para situações que, segundo ela, já duravam meses. “30 dias ainda é muito para quem já tá com falta d’água”, afirmou.

O problema agora é acompanhar os prazos

A audiência não terminou com um cronograma geral capaz de estabelecer quando todos os bairros de Batalha terão abastecimento regular.

O principal prazo apresentado pela concessionária foi o de três semanas para a intervenção na Vila Kolping. Para as demais áreas, a empresa informou que existem ações operacionais em andamento e que os investimentos necessários à universalização serão detalhados no plano de investimentos, previsto para ser elaborado até janeiro de 2027.

A Câmara, por sua vez, aprovou o requerimento com pedidos de informações técnicas, dados sobre investimentos, cronogramas e medidas emergenciais. Ao final da discussão, também foi anunciado que os documentos e relatos reunidos durante a audiência serão encaminhados aos órgãos competentes, inclusive à Prefeitura e ao Ministério Público, acompanhados de um conjunto de elementos para subsidiar eventuais medidas administrativas ou judiciais.

A OAB também informou que pretende acompanhar o caso. A vice-presidente da OAB Subseção de Esperantina, Dra Lorrane Carvalho, afirmou que solicitará a ata da audiência e o material do abaixo-assinado para acompanhar o cumprimento dos procedimentos apresentados pela concessionária.

O encontro, portanto, não encerrou a crise do abastecimento. Depois de meses de reuniões e cobranças, Batalha sai da audiência com uma intervenção específica prometida para a Vila Kolping, compromissos relacionados ao atendimento de reclamações e novas cobranças institucionais, mas ainda sem uma data geral para que o problema seja solucionado em toda a cidade.

A partir de agora, o principal teste será verificar se o prazo de três semanas será cumprido e quais respostas serão apresentadas para os demais bairros. A audiência transformou as reclamações em novos pedidos formais, mas a regularização do abastecimento ainda depende de que os compromissos anunciados saiam do papel.

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