Queremos mudanças, mas estamos dispostos a participar?

Reclamar é importante, mas participar também é uma forma de transformar a realidade

Há uma contradição cada vez mais comum na vida pública. Muita gente reclama dos problemas, mas pouca gente aparece quando chega a hora de discuti-los.

A indignação existe. Está nas conversas, nos grupos de mensagens, nas redes sociais, nos comentários e nas rodas de conversa. Mas, quando uma reunião é aberta, uma audiência pública é convocada ou uma comunidade é chamada para discutir aquilo que afeta sua própria vida, muitas vezes as cadeiras ficam vazias.

É claro que não podemos ignorar os motivos que dificultam essa participação. Trabalho, distância, falta de transporte, horários inadequados, falta de informação e até a descrença de que alguma coisa realmente vai mudar são obstáculos reais. Participar não é igualmente fácil para todos.

Mas existe também uma responsabilidade coletiva que não podemos ignorar.

Quando deixamos de ocupar esses espaços, outras pessoas passam a falar em nosso nome. E nem sempre elas conhecem nossas dificuldades, nossas prioridades ou aquilo que realmente queremos cobrar.

As redes sociais tornaram muito mais fácil fazer uma reclamação chegar longe. E isso é positivo. Uma publicação pode dar visibilidade a um problema que antes ficaria restrito a poucas pessoas. Pode gerar pressão, chamar atenção e até provocar respostas.

Mas existe uma diferença entre ser visto e estar presente.

Uma curtida não faz uma pergunta. Um compartilhamento não cobra um prazo. Um comentário não substitui a presença de quem pode contar, diante de quem precisa ouvir, aquilo que está acontecendo.

A participação popular não precisa acontecer todos os dias, nem em todos os espaços. Mas não pode existir apenas quando estamos indignados atrás de uma tela.

Democracia também é presença. É ocupar uma cadeira, fazer uma pergunta, ouvir uma resposta, discordar quando necessário e voltar depois para saber se aquilo que foi prometido realmente aconteceu.

Talvez a pergunta que devêssemos fazer não seja apenas “por que ninguém resolve?”, mas também “onde estamos quando chega a hora de cobrar?”

Porque uma comunidade não é formada apenas por pessoas que reclamam dos seus problemas. É formada também por pessoas dispostas a participar da construção das soluções.

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