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Entre agulhas e couro: a confecção dos trajes que simbolizam a Festa do Bode

Para entender os bastidores, conversamos com a costureira batalhense Vanusa Alves

A XVI edição da Festa do Bode começa nesta sexta-feira (12) em Batalha e, com ela, um dos momentos mais aguardados pelo público: a escolha do Rei e da Rainha do Bode. Ao todo, oito jovens irão disputar a coroa este ano: quatro mulheres — Alice, Joélida, Lorena e Sabrina — e quatro homens — Gustavo, Leonam, Lucas e Victor.

Além do brilho da passarela, o desfile chama atenção pela riqueza dos trajes confeccionados parcialmente ou totalmente em couro de bode, símbolo maior da identidade cultural da festa. Para entender os bastidores dessa produção artesanal, o Diário de Caraíbas conversou com a costureira batalhense Vanusa Alves, que há mais de uma década se dedica à confecção dessas peças únicas.

Foto: Arquivo

Vanusa recorda que seu primeiro contato com o couro de bode aconteceu ainda nos primórdios do concurso, quando as candidatas eram convidadas por associações e instituições a participarem. “Foi o meu primeiro contato, eu morava fora, voltei pra cá, pra minha cidade, e daí eu vi de perto como era o manuseio e a preparação do couro. Naquela época, uns dez anos atrás, era ainda mais difícil, porque hoje o couro é muito bem tratado e se torna mais maleável. Antes era mais grosseiro e exigia muito esforço para trabalhar”, relembra.

O processo criativo começa pelo modelo do traje e pela definição da tonalidade desejada. A partir daí, Vanusa busca o couro que mais se aproxime da ideia. “Dependendo de onde você compra, tem couros muito bem tratados, limpos, finos. Outros são mais grossos, mas também muito bonitos. Aí optamos por eles, mesmo que deem mais trabalho”, explica.

Em alguns casos, o couro chega com o cheiro forte característico, o que exige um tratamento especial.

A produção de um traje feminino leva, em média, um dia e meio de trabalho, com cerca de oito horas diretas dedicadas à peça. “É muito difícil cortar e costurar, porque precisa de agulha grossa e máquina resistente. Mesmo tratado, o couro é duro”, conta. Para os trajes masculinos, o tempo é menor, variando entre duas e três horas para a confecção de coletes, além de detalhes em calças.

Um exemplo desse trabalho pôde ser visto na edição de 2024 da Festa do Bode, quando a influenciadora digital batalhense Halandha Cardoso usou um traje confeccionado por Vanusa especialmente para a ocasião. O look chamou atenção do público e mostrou como o couro do bode pode ganhar novas formas e narrativas, mantendo viva a tradição e, ao mesmo tempo, dialogando com a modernidade.

Para Vanusa, os trajes de couro são a alma do concurso. “Eu acho que é a essência maior do desfile de Rei e Rainha do Bode. Lembro de dois anos em que tentaram usar vestidos de gala, mas não teve o mesmo brilho. O público quer ver os trajes de couro. Por mais bonito que um vestido de gala seja, culturalmente a festa se caracteriza pela beleza do que se pode tirar desse animal que é tão rico”, afirma.

Vanusa Alves – Foto: Reprodução

Trabalhar com o couro não é simples. É caro, duro e exige técnica. Mas, para a Vanusa, justamente aí está a beleza do resultado. “Nenhum vestido jamais vai ser igual ao outro. O couro nunca é o mesmo: cor, textura, pelagem… Isso torna cada peça única. Essa é a maior satisfação, porque a gente nunca repete uma criação. É uma beleza gigantesca”, reflete.