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Tia Francisca e Tia Raimunda: pioneiras que alfabetizaram gerações em Caraíbas II

No Dia do Professor, a homenagem a quem dedicou a vida a ensinar em Caraíbas II

Hoje, no Dia do Professor, o Diário de Caraíbas traz uma homenagem afetiva e necessária: duas mulheres que dedicaram suas vidas à educação da comunidade de Caraíbas II. Tia Francisca e Tia Raimunda, já aposentadas, foram escolhas naturais para esta pauta — moradoras, professoras e referências afetivas para muitas famílias.

Ao contar suas histórias, revisitamos o tempo em que a escola começou numa palhoça e como o trabalho de tantos professores fez nascer uma comunidade leitora, capaz e orgulhosa de sua origem.

Uma escola que nasceu da comunidade

Antes da Unidade Escolar Joana D’arc Castelo Branco existir, as crianças de Caraíbas II estudavam numa casinha de palha construída por moradores e coordenada por D. Francisca Gonçalves e D. Socorro Alves. Registros locais mostram que, na década de 1980, o terreno foi doado por iniciativas como o Projeto Vale do Parnaíba e a construção do colégio começou em 1982. Há pequenas variações nas datas de inauguração (algumas fontes locais citam março de 1983; outras, 1º de março de 1985), mas o que não muda é a força comunitária que ergueu a escola. Desde então a unidade cresceu: novas salas, cantina, quadra e, anos depois, até o ensino médio em turno noturno, tornando-se um dos principais colégios públicos da zona rural.

Foto: Arquivos/JDCB

É nesse cenário de suor e cooperação que se inserem as histórias de Tia Francisca e Tia Raimunda — histórias de palhoça, de salas multisseriadas, de turmas lotadas e de alfabetizações que mudaram destinos.

Tia Francisca

“A minha trajetória começou quando eu ficava na sala de aula do meu sogro, o saudoso João Gomes. Quando ele saía para trabalhar, eu ficava com os alunos dele. Eu já tinha muita vontade de ser professora, ainda era menor. Tinha muito amor pelo meu trabalho. Comecei a trabalhar em 1977. A sala de aula era uma palhoça.”

Assim, Tia Francisca narra o início de sua caminhada. A fala simples carrega a força de quem aprendeu a ensinar na prática, sem grandes recursos, com uma enorme disposição: “O meu maior desafio foi dar aula para 40 a 45 alunos em uma sala. A minha maior alegria era alfabetizar uns 25 alunos que, a maioria, não sabia ler.”

Foto: Arquivos/JDCB

Ela recorda também a rotina multisseriada: “Foi trabalhar em sala de aula com alunos multisseriados, alunos de 2ª, 3ª e 4ª série.” Ensinar várias séries ao mesmo tempo exigia criatividade, paciência e muito afeto — papéis que Tia Francisca assumia sem cerimônia: “Na sala de aula eu era mãe, babá, cantora… Tudo. O professor tem que ser um pouco de tudo.”

Hoje, ao olhar para os frutos daquele esforço, Tia Francisca sente gratidão: muitos dos seus ex-alunos tornaram-se pais e mães de família; ela vê netos se formando e celebra essa continuidade. “Hoje sou uma pessoa feliz”, diz, entre lembranças e um sorriso tranquilo que atravessa décadas.

Tia Raimunda

“Minha trajetória como professora começou quando eu tinha 22 anos. Começou de um jeito bem diferente. Naquele tempo, a gente não tinha muitas oportunidades e eu vinha de uma família pobre, com muitas necessidades. Um político da época me ofereceu o cargo de professora e foi assim que comecei.”

O relato de Tia Raimunda revela outra face da docência rural: a entrada pela necessidade e a transformação pela dedicação. “No começo era por necessidade mesmo, mas com o tempo fui me dedicando, estudando e aprendendo cada vez mais, até que ser professora virou realmente a minha profissão.”

Foto: Arquivos/JDCB

Ela define os anos na Unidade Escolar Joana D’arc como tempo de intensa entrega: “O trabalho era intenso e exigia atenção. Cada dia trazia desafios com alunos e comunidade. Foram anos de dedicação que deixaram marcas e aprendizados na minha vida.”

Para Tia Raimunda, as maiores alegrias vieram das amizades sinceras e do aprendizado mútuo: “A maior satisfação foi aprender com as pessoas e as situações da vida fora da escola. Cada experiência trouxe algo que levo até hoje em minhas relações.”

Mesmo aposentada, Tia Raimunda reafirma que a docência segue sendo parte de sua identidade: “Ser professora significa trabalho duro e ensinar. Mesmo aposentada, é algo que carrego comigo — faz parte da minha vida até hoje.”

Vozes que orientam

Perguntadas sobre a educação atual, as duas trazem observações que completam o retrato do ofício.

Tia Francisca fala com franqueza sobre mudanças de comportamento: “Educação hoje está muito fácil para o aluno, mas muitos não estão estudando para aprender. Meu conselho para os estudantes é valorizar mais os professores.” A fala resume um sentimento comum entre educadores: a necessidade de reaproximação entre escola e compromisso de aprendizagem.

Tia Raimunda enxerga avanços técnicos e desafios diferentes: “A educação hoje é bem diferente; os tempos mudaram, os alunos mudaram e também a forma de ensinar. Hoje os professores têm mais acesso a materiais, mais recursos e a tecnologia ajuda bastante — coisa que na minha época não tinha. Meu conselho é continuar trabalhando, aproveitar os recursos da tecnologia e ter muita paciência para lidar com os desafios que surgem em sala de aula.”

Foto: Arnaldo Silva/DC

Esses conselhos — dois olhares complementares — são, ao mesmo tempo, um pedido de reconhecimento e um lembrete sobre a complexidade de ensinar: afeto, método e adaptação caminham juntos.

Uma homenagem às professoras da comunidade

Além de Tia Francisca e Tia Raimunda, Caraíbas II teve e tem outras educadoras que marcaram gerações: Tia Solimar, Tia Zoraide (Tia Lora) e muitas outras, entre as quais mencionamos com carinho a Tia Ana. Todas elas somam histórias que se entrelaçam com a história da escola: da palhoça às salas reformadas, dos primeiros festivais juninos ao polo de ensino médio.

Para fechar, um abraço em forma de gratidão

No Dia do Professor, a lembrança destas duas mulheres é também a lembrança de todos os professores que, com pouco e com coragem, construíram educação em nossa zona rural. Alfabetizar uma criança, acalentar uma família preocupada, elogiar um progresso tímido — são gestos que mudam trajetórias. Que a história de Tia Francisca e Tia Raimunda aqueça corações, inspire ex-alunos e renove o respeito pela profissão.

Aos professores em exercício: que tenham paciência, recursos e reconhecimento. Aos ex-alunos e à comunidade: que celebremos e cuidemos de quem nos ensinou a ler o mundo.

A todas as professoras e professores de Caraíbas II e do Brasil, nosso abraço. Feliz Dia do Professor.