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“Sem amor, nada sou”: a caminhada de Natanael Franco até o sacerdócio

Após quase dez anos de formação, batalhense será ordenado sacerdote neste sábado

Na comunidade Grossos, zona rural de Batalha, nasceu a vocação que agora ganha forma definitiva na vida de Francisco Natanael Neres Franco. Integrante da Congregação do Santíssimo Redentor, ele será ordenado sacerdote neste sábado (29), na Igreja Matriz de São Gonçalo. Mas antes do rito, há uma história — feita de silêncio, comunidade, memória e fé — que ele mesmo descreve como um caminho moldado pelo amor.

“Meu chamado vocacional não pode ser desprendido da vida da minha comunidade”, afirma. Ali, entre celebrações simples, missões populares e participação ativa na Igreja, a semente do sacerdócio começou a brotar. Ainda jovem, ele descobriu um desejo que não sabia nomear, mas que já carregava no peito:

“Eu desejava ser todo de Deus na Igreja, para a Igreja.”

Da primeira missão ao encontro com os Redentoristas

Os anos de 2011 a 2013 marcaram um momento decisivo. As Missões Populares realizadas em paróquias da Diocese de Parnaíba despertaram nele a vontade de ser missionário. A ideia de “servir além das fronteiras”, de chegar onde a Igreja mais precisa, o encantou antes mesmo que ele pensasse no sacerdócio.

Em 2012, durante uma Missão Popular realizada em Batalha, um missionário falou sobre a possibilidade de participar de um encontro vocacional. Natanael decidiu ir, mesmo sem imaginar que aquele passo abriria caminho para algo maior. A identificação com a vida missionária começou ali, mas o contato com os Redentoristas viria apenas depois, já em 2014, quando finalmente conheceu a congregação e se reconheceu no carisma redentorista.

“Quando cheguei lá, era como se eu tivesse encontrado algo que procurava há muito tempo, mas não sabia. A vida redentorista era tudo aquilo que eu ansiava: ajudar comunidades necessitadas, não estar preso a um lugar, ser missionário além-fronteira.”

A identificação com a Congregação do Santíssimo Redentor não deixou dúvidas. Ele seguiu o caminho, mesmo sem imaginar que, anos depois, seria ordenado padre.

Foto: Arquivo Pessoal

A ordenação e o sentido do chamado

A cerimônia deste sábado representa mais do que uma etapa sacramental: é a confirmação de um chamado que acompanhou Natanael por toda a vida. “É a Igreja dizendo para mim que a minha vocação realmente é um chamado de Deus”, afirma.

O momento é vivido entre gratidão, ansiedade e surpresa com o tempo que passou. “Parece que não se passaram quase dez anos de formação”, diz. “É algo que vai mudar, mas é algo que meu coração já vive.”

O lema escolhido — “Sem amor, nada sou, Senhor” — é fruto de um discernimento profundo. Ele explica que antes acreditava que o serviço era o centro da vida da Igreja; hoje compreende o contrário.

“É o amor que faz o serviço acontecer. Podemos fazer tudo no mundo, mas se não tiver amor, não somos nada.”

Viver esse lema diariamente é, para ele, um compromisso e, ao mesmo tempo, um desafio. “Ainda não sou tão amoroso, mas esse é o caminho.”

Entre família, lágrimas e apoio

A decisão de seguir a vocação não foi simples para a família. Quando contou sobre o encontro vocacional, os pais reagiram com estranhamento. O pai saiu, a mãe chorou. “Era uma coisa nova para eles”, lembra. Mas depois do susto inicial, veio o apoio — firme, silencioso, constante.

“Sem eles, teria sido muito mais difícil. Mesmo com nossas limitações, nunca deixei de participar da vida da Igreja. A mãe sempre dava um jeito.”

Hoje, ele reconhece nos pais e na família um dos pilares mais fortes de sua caminhada.

Foto: Reprodução

“Celebrar aqui é celebrar meu início”

Embora pudesse ser ordenado em qualquer paróquia redentorista do Brasil, Natanael nunca considerou outra possibilidade que não fosse Batalha. A decisão tem raízes na memória e na gratidão:

“Quero celebrar entre os meus, com as pessoas que rezam por mim e confiaram na minha vocação desde o começo.”

Para ele, voltar à terra natal é também um ato de identidade. “É para que eu não esqueça de onde saí e qual rumo quero seguir. Minha terra me dá a base para continuar aquilo que Deus deseja.”

Foto: Arquivo Pessoal

Desafios e conversão

Ao longo da formação, enfrentou dificuldades internas e externas — estudos, rotina comunitária, exigências espirituais. Mas o maior desafio foi consigo mesmo.

“Trabalhar a própria vida, ser uma pessoa melhor segundo o projeto de Deus, isso é o mais difícil.”

Houve momentos de crise, não de vocação, mas de conversão.

“Questionava se era isso mesmo, se poderia viver outra vida. Mas o que me sustentou foi a certeza de que fui chamado. Sempre vi Jesus como alguém próximo. Ele não me deixou sucumbir.”

A vocação missionária que molda seu sacerdócio

Antes de desejar ser padre, Natanael desejou ser missionário — e essa perspectiva acompanha toda a sua trajetória. Ele sempre se imaginou servindo comunidades distantes, auxiliando onde a Igreja mais necessita e vivendo a fé além das fronteiras geográficas.

Esse desejo encontrou lugar na espiritualidade redentorista, marcada pela disponibilidade e pela presença onde “as situações são mais difíceis”, como expressa a Constituição nº 20 da congregação.

“Minha expectativa é estar disponível”, diz. “O missionário redentorista é aquele que está disponível para o que for necessário. Sempre quis servir assim.”

Essa dimensão missionária molda não apenas o sacerdote que ele se torna, mas também o homem que cresceu nos Grossos — alguém que aprendeu a fé em comunidade, que descobriu o amor através do serviço e que agora retorna às origens para, de lá, seguir para onde Deus enviar.

Os próximos passos

O destino missionário após a ordenação ainda não está definido. Ele aguarda a decisão da Província Redentorista, mas sua postura é clara: disponibilidade.

“Minha expectativa é essa: estar disponível. O missionário redentorista é aquele que está disponível para as coisas mais difíceis. Quero fazer aquilo que Deus deseja.”

Uma mensagem ao povo de Batalha

Às vésperas da ordenação, Natanael deixa um recado ao povo batalhense e, especialmente, aos jovens:

“Todos nós somos capazes de viver o sonho de Deus. Cada um tem sua vocação, e ela é a melhor para cada um. Deus continua criando, renovando. Ele nos quer felizes. Precisamos estar disponíveis ao que Ele deseja — e assim seremos plenamente felizes.”

No sábado, quando o novo sacerdote estender as mãos diante da comunidade, não será apenas a realização pessoal de um jovem dos Grossos. Será também a confirmação de uma história construída com fé, raiz e amor — aquele amor que agora define a missão que ele escolheu viver todos os dias.

Foto: Reprodução

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