Editorial | Viver com dignidade ainda é um desafio

Histórias recentes expõem desigualdade, falhas sociais e falta de acesso ao básico

O papel aceita tudo. Os gráficos de Brasília e das capitais anunciam, com pompa e circunstância, que milhões de brasileiros saíram da linha da pobreza. No papel, o país avança. Na prática, o barro encharcado da chuva e o estalo da madeira podre contam uma história bem diferente. O Brasil que “melhorou” nas planilhas é o mesmo Brasil onde, em Barras, uma mãe grávida e dois filhos morrem soterrados por um teto que não suportou o peso da negligência.

A tragédia de Antônia Carla Pereira Araújo não é um acidente fatal, é um crime de omissão. É o retrato de um sistema que permite que casas populares apodreçam vazias devido ao imbróglio burocrático, enquanto uma família implora por dignidade nas redes sociais até ser silenciada pelos escombros. Enquanto beneficiários fantasmas seguram chaves de imóveis que nunca ocuparam, quem tem pressa (quem tem fome e medo da chuva) morre na fila.

A poucos quilômetros dali, em Batalha, o cenário se repete no clamor de Lucelane da Silva Santos. Morar em uma casa de taipa, sem banheiro, com o telhado cedendo, não é “viver”. É um exercício diário de sobrevivência que humilha a condição humana. Lucelane não padece por falta de esforço. O que falta não é vontade, é o Estado.

É fácil manter o discurso de que os benefícios sociais “acomodam” o cidadão. Essa é a retórica da bolha, de quem nunca teve que escolher entre comprar telhas ou comida. A verdade é que, para muitos, o benefício é o único fio de vida em um mundo sem oportunidades reais. Mas há uma ferida aberta: a má gestão. Enquanto quem realmente precisa enfrenta o labirinto da assistência social e o descaso habitacional, há quem se aproveite indevidamente do sistema, manchando a imagem de programas que deveriam ser a última fronteira contra a miséria.

Não podemos aceitar o discurso da “redução da pobreza” como uma missão cumprida enquanto o direito constitucional à moradia for uma sentença de morte. De que serve o crescimento do PIB se ele não chega ao bairro Vila França ou à Rua Manoel Fabiano?

O Brasil precisa decidir se quer ser o país dos indicadores maquiados ou o país que protege seus filhos. Enquanto políticos gozam de frotas luxuosas pagas pelo povo, o povo continua a pagar com a própria vida o preço de uma conta que nunca fecha. O desabamento em Barras e a agonia em Batalha são o grito de um Piauí que não cabe nos gráficos. E esse grito exige mais do que auxílio-funeral; exige justiça e o fim da indiferença que mata.